Acabo de ler que no dia 5 começou, nos EUA, o princípio do fim de Mad Men, depois de 8 anos de metáforas e analogias a beliscar a perfeição televisiva. Incontornável é o vulto sorumbático de Donald Draper. Tudo nele é energia esmagadora: do sobrolho franzido à boca comprimida que, talvez, nos vá dizer alguma coisa sobre si e sobre os fantasmas que, às vezes, em casa, lhe batem à porta. Com força. Homem recatado mas veemente, elegante e autoritário, com um espírito irrequieto e um coração caótico pesado de mágoa. Uma pose marcial, dura, mas ao mesmo tempo visivelmente sofrida: lê-se no rosto a impiedade da vida, a ideia de que o homem é o lobo do homem.
terça-feira, 7 de abril de 2015
jornal i #17 Da utopia do multiculturalismo à distopia de "Submissão"
Hoje, para o jornal i:
Num livro, intitulado “The Utopia Experiment”, de Dylan Evans, conhecemos a história de um excêntrico que decide fundar uma sociedade utópica na Escócia. Uma vez lá, afastado do mundo e da civilização, Dylan acompanha a transformação da utopia em distopia e nós lemos como é fácil uma alma, do próprio Evans, transformar-se em rebuçados desfeitos. Enfim, Hobbes tinha razão.
Fenómeno semelhante foi esse delírio utópico de alguns intelectuais (Kymlicka, por exemplo): o “progressismo” multiculturalista, que, numa Europa modernaça e de consciência tranquila, permitiu a imigração sem exigir integração, o que destruiu a coesão social, minou as identidades nacionais e degradou a confiança entre vizinhos. Na Alemanha, em França e no Reino Unido as consequências estão aí: sociedades fragmentadas, minorias alienadas, cidadãos ressentidos e extremismo em grandes doses.
E é justamente num desses países, França, que surge “Submissão”, de Houellebecq, famoso por “Partículas Elementares” e visto como um niilista. “Submissão” é um sinónimo possível de islamismo, mas um leitor mais atento concordará que a trama se assemelha a mais um brilhante exemplo de distopia, ao estilo de Orwell e de Huxley. O livro, que chegou às bancas portuguesas a semana passada, retrata justamente a fraude tardia do multiculturalismo: o islamismo, amparado e protegido pelo multiculturalismo do Ocidente, toma as rédeas do poder em França. É o início do fim da Europa que conhecemos.
quarta-feira, 1 de abril de 2015
período de gestação
"Há pequenas impressões finas como um cabelo e que, uma vez desfeitas na nossa mente, não sabemos aonde elas nos podem levar. Hibernam, por assim dizer, nalgum circuito da memória e um dia saltam fora, como se acabassem de ser recebidas. Só que, por efeito desse período de gestação profunda, alimentada ao calor do sangue e das aquisições da experiência temperada de cálcio de ferro e de nitratos, elas aparecem já no estado adulto e prontas a procriar. Porque as memórias procriam como se fossem pessoas vivas. Acreditem que sim, e passamos ao capítulo seguinte".
Antes do degelo, Agustina, p. 13.
terça-feira, 31 de março de 2015
jornal i #16 Hitchcock e Varoufakis
o meu texto de hoje, para o jornal i,
O mundo foi agraciado com mais um suspiro, como que a dar sinais de vida, de um tipo de left wing que se julgava extinto. Esquerdistas radicais de todo o mundo rejubilaram com os seus novos compagnons de route; senhoras, seduzidas pelo dandismo e rebeldia-caviar do sr. Varoufakis, lutaram contra fogachos indomáveis. Mas em Varoufakis nada é novo. O ministro recorda o poema “Fúria e Raiva”, de Sophia: “Com fúria e raiva acuso o demagogo/ que se promove à sombra da palavra/ e da palavra faz poder e jogo/ e transforma as palavras em moeda/ como se fez com o trigo e com a terra”.
Qualquer mente civilizada, logo prudente, sabia tanto do ministro grego quanto Fontaine, em “Suspicion” do Hitchcock, sabia de Cary Grant. Suspeitava que Varoufakis seria mais um desses socialistas cabotinos que procuram, forçosamente, conciliar uma vontade infantil e narcísica de mudar o mundo e… o mundo; esses que sofrem, coitados, da incapacidade, tipicamente esquerdista e hipócrita, de distinguir discursos de comportamentos, a teoria da prática, vendendo esperanças desmedidas. Mas, como Fontaine, ninguém estava certo.
E eis que Varoufakis dá razão aos prudentes; não, não me refiro ao cachecol. Nem ao dedo maroto exibido aos alemães. Noticiava o “Daily Mail” que o sr. ministro, embaraçado depois do “caso” “Paris Match”, decidiu que o look anti-austeridade seria mau para o negócio da polis. Vai daí, decide colocar a sua mansão de férias para arrendar por 5 mil euros por semana.
Tudo isto corresponde a um padrão, superiormente descrito pelo jornalista e escritor brasileiro Rodrigo Constantino, no livro “Esquerda Caviar”, já à venda em Portugal.
sexta-feira, 27 de março de 2015
uma voz humana
L'amore, Roberto Rossellini (1948)
a mesma tragédia, o mesmo jogo de cintura, com todo este desespero, todo este êxtase e encolhimento. de um momento para o outro, um nome fantástico, uma voz humana, as palavras das coisas, que se perdem, que se desenrolam, que tombam, de repente. "Meravigliosa interpretazione dela Magnani", triste memória, ainda intacta, a dos amantes, mortos tão cedo.
quinta-feira, 26 de março de 2015
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