quarta-feira, 20 de maio de 2015
terça-feira, 19 de maio de 2015
jornal i #23 Constança
Hoje, para o jornal i:
Passaram 5 anos, Constança entra na universidade. Tem hoje 20 anos e prepara-se para uma entrevista que a ajudará a pagar o seu curso. Sonha ser professora. Detesta “filmes de ação”, corre durante a alvorada três vezes por semana, organiza com etiquetas os tupperwares e duas vezes por semana troca as flores do beiral da janela. Vota à direita e diz, frequentemente que, um dia, quando tiver uma filha, quer chamar-lhe Luísa, em homenagem à sua mãe.
Passaram 5 anos, Constança entra na universidade. Tem hoje 20 anos e prepara-se para uma entrevista que a ajudará a pagar o seu curso. Sonha ser professora. Detesta “filmes de ação”, corre durante a alvorada três vezes por semana, organiza com etiquetas os tupperwares e duas vezes por semana troca as flores do beiral da janela. Vota à direita e diz, frequentemente que, um dia, quando tiver uma filha, quer chamar-lhe Luísa, em homenagem à sua mãe.
Chega o momento da entrevista, entra nervosa, mas a sorrir para o mundo. A gerente de recursos humanos, do hipermercado, olha para aquele rosto fresco e recorda-se do vídeo “viral” que correu Portugal em 2015 e que também ela partilhou no facebook. "Foi você?" Atira a entrevistadora de unha vermelha e rabo-de-cavalo loiro. Com a testa franzida e a boca entreaberta, Constança responde que sim. Seguem-se umas perguntas de circunstância e Constança é avisada de que voltarão a contactá-la. Com os olhos ardendo e um aperto no peito, vai-se embora.
Noutro tempo, a cena a que assistimos naquele vídeo “viral” ficaria guardada nalguma gaveta da memória de meia dúzia de pessoas e, com o tempo, desvanecia, como feliz ou infelizmente, tudo desvanece. Desde o início dos tempos, para nós humanos, esquecer tem sido a norma e recordar a exceção. Tudo mudou com as possibilidades da memória digital que eterniza uma Constança que já não existe cuja identidade foi construindo e evoluindo ao longo dos tempos. Constança será, hoje, diferente de si mesma há 5 anos. E isso, caro leitor, deve ser respeitado por todos nós.
sexta-feira, 15 de maio de 2015
apertão
De vez em quando, lá vem mais um apertão, pelo facebook de um amigo, de outras latitudes, que tem a distinta lata de escrever "it's just nice to be here". Lucky bastard.
quarta-feira, 13 de maio de 2015
o rosto de Bergman
Compreendo a escolha da leveza (e, escusado dizer,beleza), desse instante de graça, captado na fotografia escolhida para o cartaz do festival de Cannes. Seria a mais adequada se Bergman apenas tivesse filmado Casablanca (1942), de Michael Curtiz. Mas Bergman filmou com Hitchcock: A Casa Encantada (1945), Difamação (1946) e Sob o Signo de Capricórnio (1949). E mais: Bergman fez filmes e filhos com Rossellini, a malandra.
Por isso, quando se trata da Senhora Ingrid , esta fotografia, tirada por Gordon Parks, no intervalo das filmagens de "Stromboli" (1950), é a minha escolha, porque esta não é uma diva qualquer: é uma diva enigmática. Comparando todas as outras, umas mais stars, outras menos, contemporâneas ou não, não passam de maus exemplos.
terça-feira, 12 de maio de 2015
jornal i #22 O esquerdismo de Game of Thrones?
Hoje, para o i:
A vida não está fácil para quem gosta de “Game of Thrones” (GoT) e milita à direita. Descobri que GoT, série pop fiction, da HBO, promove ideias esquerdistas. Oh, Deus, e eu que passei tantas horas prostrada diante do ecrã perdida nos decibéis de “A Song of Ice and Fire”, do George Martin. Mas era óbvio, eu é que não queria ver, o revivalismo marxista está patente na forma crua como nos é apresentado o mundo feudal, com um cheirinho ao estilo revolucionário de mudar o mundo, do “começo do fim”.
Não invento, a análise histórico-materialista da série foi objecto de dois ensaios: “Can marxist theory predict the end of Game of Thrones?”, de P. Mason, no “Guardian”, e “Game of Throne and the End of Marxist Theory”, de S. Kiss, na Jacobin Mag, com enfoque no colapso do feudalismo. Basicamente, antevê-se um final em que um sistema velho e injusto se torna obsoleto em face de várias ameaças às instituições que sustentam as classes altas, mas o povo, esse, está unido por uma força secreta. Pressente- -se uma mudança de paradigma, rumo à “República do Povo de Westeros”, e a marcha da história parece condenar os temíveis Lannister. Os indícios são vários: a personagem de Arya Stark, rebelde e emancipada, o esgotamento das minas de ouro, anunciado por Tywin, na 4.a temporada, a dívida dos Lannister ao Banco de Ferro, etc. Mas o mais óbvio vem do Sul, cavalgando, voando e conquistando, Daenerys Targaryen, a Messias, liberta, por onde passa, escravos oprimidos com os seus irritantes beiços (de Emilia Clarke, entenda-se) e os seus dragões domesticadinhos.
A relação desta série com a realidade é, digamos, problemática. Mas o marxismo e o socialismo são acometidos pela mesma patologia, na qual “realidade” é um conceito fantástico, mesmo ficcional, e algo ingénuo.
domingo, 10 de maio de 2015
do esforço social
"Não sou muito bom nas situações sociais, mas quando estou nelas tento ser agradável e fazer tudo o que é esperado de mim, tento agradar aos outros. Depois, venho-me embora e já não quero saber de nenhuma daquelas pessoas"
Entrevista a Karl Ove Knausgard, por Cristina Margato, in E. A revista do Expresso, do dia 9 de maio de 2015
sábado, 9 de maio de 2015
afinidades (mínimas) com Orlando de Carvalho
"Os anos de preparação do Doutoramento (...) [são] particularmente
dolorosos, não só pela magreza dos dinheiros mas também pela exigência de
rigor que (...) [elegi] como paradigma científico. (...) [Pertenço, felizmente] a
uma raça de homens que abominam a solércia do bluff fácil e fútil com que,
principalmente nas ciências humanas, cada vez é mais comum, e mais socialmente rendoso, passar gato por lebre e ganhar fama de ilustre. Sem a esperança de que alguém algum dia contabilize o que investimos em esforço, em
leitura, em meditação, em reflexão, pois não só a audiência especializada é
muito estreita como não deixa de padecer frequentemente – em terra em que
todos cultivam o seu arrátel de glória – de emulação parcimoniosa e malévola."
Oração do Senhor Presidente do Conselho Directivo da Faculdade de Direito, Doutor ORLANDO DE CARVALHO, BFDUC, Vol. LXVIII, Coimbra, 1992: (1-478): [421-424]
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