terça-feira, 7 de julho de 2015

jornal i #29 um referendo à solidariedade europeia

Hoje, para o jornal i:
“Ainda não se sabia o resultado final do referendo grego e já Catarina Martins bradava pela “solidariedade europeia” no cenário de vitória do “não” que abre portas a uma “nova Europa”. E, entenda-se, a vitória do “não” é no sentido de “não a mais austeridade e sim a mais dinheiro”.
É caricatural, no mínimo, falar-se em solidariedade que, segundo a elementar Wikipédia, mais não é que um acto de bondade para com o próximo, uma situação de cooperação mútua entre duas ou mais pessoas.
Este conceito de solidariedade europeia, accionado pela esquerda sempre que há um Estado-membro fragilizado por irresponsabilidade própria, torna-se ridículo se pensarmos que se está a referendar o produto de um acto de bondade e ainda mais ridículo é que o referendo incida sobre a vontade do beneficiário desse acto.
Portanto, o referendo deveria ser alargado a todos os povos europeus que, num acto de solidariedade (com um cariz algo compulsivo, diga-se), emprestarão mais dinheiro à Grécia.
O que responderiam os europeus a: “Está disposto a aumentar a sua carga de impostos para ajudar a Grécia?” ou “Concorda com o perdão da dívida grega?” Aí sim, poderia verdadeiramente falar-se de uma “nova Europa”, mais democrática.
Por outro lado, a santidade da democracia directa, neste contexto, é bastante fragilizada quando em causa está a preservação do vínculo a entidades como a União Europeia ou a zona euro, cujo grau de complexidade e lógica burocrática tem vindo a agravar-se.
Ou seja, poderá um referendo reflectir a vontade de um povo de ser parte de uma organização cujos contornos não conhece? Até que ponto não estará o Syriza a aproveitar-se da assimetria informativa dos gregos, expressa numa irracionalidade decisória?”

terça-feira, 30 de junho de 2015

antinatura



To joy, Ingmar Bergman (1950)

qualquer coisa a mais


"(...) nos dias das avaliações havia qualquer coisa a mais, um excesso de tagarelice, uma demonstração exagerada de ternura pelos filhos, um tom de voz artificial e festivo, com  notas demasiado altas e vibrantes, que a intuição da velha dizia que só podia ter uma origem intrinsecamente má".


gente melancolicamente louca, Teresa Veiga, p. 158

Jornal i #28 Incapacidades do PS

Hoje, para o jornal i:


Caro leitor, apesar das atenções centradas em Atenas, chegou a altura de reconhecermos o esforço colossal do PS. Refiro-me, em concreto, ao esforço de coerência revelado nos últimos tempos. Eu explico: António Costa, essa esperança audaz (ou será mendaz?), dependendo do dia, da semana ou mesmo do mês, já se referiu ao Syriza sob diferentes perspetivas que oscilam entre “uma linha a seguir” e uma atitude “tonta” perante a UE. No meio de tanta contradição, a semana passada, no dia 25 de junho, o PS Porto organiza uma manifestação contra a austeridade e chantagem em apoio do Syriza. 


É surpreendente como a nadar em tanta vacuidade o PS concentra os seus esforços em manter alguma coerência. A dura realidade é que, a poucos meses das legislativas, o PS está ideologicamente perdido. Num partido que se apresenta como alternativa séria de governo, a sua incapacidade de tirar as devidas consequências das suas diferenças com o Syriza é assustadora. Este marinar ideológico confirma a improbabilidade de um candidato, estruturalmente socialista, ao tentar desafiar o consenso ideológico politicamente correto socialista/social democrata, desenvolver um programa e um léxico alternativo, neste torpor europeu pós moderno, e com isso beneficiar de uma votação de proporções históricas. O PS é, por isso, um partido sem fôlego, ideologicamente falido, historicamente comprometido com o presente, e incapaz de suportar um debate que não assente num jogo de cintura entre a coerência e a contradição.

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Jornal i #27 A praga do politicamente correcto

Texto publicado a semana passada no jornal i:

Jerry Seinfeld, sem papas na língua, colocou o dedo na ferida: "O politicamente correto [curiosamente, PC] está a dar cabo do sentido de humor". Refletindo sobre o estado atual da comédia, Seinfeld alerta para o perigo da ditadura do PC que, passo a passo, está a limitar o discurso artístico das sociedades modernas, estando particularmente ativo entre os membros mais radicais da academia e seus discípulos. Assim, consequentemente Seinfeld declarou que deixou de fazer stand-up em universidades. Segundo Seinfeld, os jovens não sabem o que palavras como "sexista" realmente significam, "Eles (jovens da academia) apenas querem usar estas palavras: Isto é racista, Isto é sexista, Isso é preconceito". Este perigo que afecta grandemente as liberdades dos comediantes, impedidos que ficam de usar certas expressões ou refletir, ainda que de forma descontraída, sobre questões de género, raça, religião ou orientação sexual; em breve condicionará toda a criação artística.


      Definir esta praga nem sempre é fácil, mas Theodore Dalrymple explica que é a tentativa de reformar o pensamento tornando algumas coisas indizíveis e, ao invés, usando um vocabulário purificado e de sentimentos humanos abstractos. É, no fundo um mix entre covardia, má informação e preocupação com a imagem que conduz as sociedades modernas a esta capacidade de produzir ofendidos profissionais. Chegará o dia em que Hollywood se verá obrigado a produzir apenas comediantes politicamente corretos, nesse dia a comédia será apenas mais um defunto do século XXI, a par da liberdade de expressão.