terça-feira, 18 de agosto de 2015

#32 jornal i: David Foster Wallace chega ao cinema


Hoje, para o jornal i, 

“I think that if there is a sort of sadness for people under 45, that’s something to do with pleasure and achievement and entertainment. Like a sort of emptiness at the heart of what they thought it was going on”. Dou voltas e mais voltas a esta frase de David Foster Wallace, esse perscrutador dos mistérios do humano, que nos é apresentada no filme “The end of the tour” (James Ponsoldt), sobre uma entrevista de cinco dias entre o repórter da revista Rolling Stone, David Lipsky (Jesse Eisenberg) e aquele aclamadíssimo escritor interpretado por Jason Segel.

Foster Wallace já não é dos fãs que o liam ou dos amigos que o conheciam: passou a ser culturalmente de todos, num processo que – é mera suposição, confesso – culminará com um resultado semelhante ao de Hitchcock, que quase fez de todos, quando pronunciam o seu nome, “cinéfilos”, verdadeiros espectadores apaixonados pelo “género”, um mestre do suspense conhecido por todos, mesmo aqueles que nunca ouviram falar de “Rebecca” (1940) ou “Notorious” (1946).

A história que o livro de Lipsky “Although of Course You End Up Becoming Yourself”, publicado em 2010, relata além de verídica é fascinante mas, o filme, parece ficar aquém. Há desde logo o estilo “bromance”, que relata uma viagem de “bonding”, entre dois homens, preenchida por momentos de partilha de M&M’s e o entoar de uma música de Alanis Morissette. Mas o verdadeiro desafio de transformar o livro de Lipsky num filme, abdicando do artifício da palavra escrita, passa não só pela representação da solidão, crua e dura, que fulminou Foster Wallace, como também pela representação de um homem que olhava tudo com olhos pensativos, que vêm para além das coisas e das pessoas e parecem assustar-se. Um homem com qualquer coisa a roê-lo por dentro, o que é um dom e um sofrimento, sem nunca estar contente, sem se entregar, receando tudo aquilo que se passa em volta dele. Há poucos atores capazes de interpretar este “tipo”, com a intensidade e naturalidade apropriadas e não me parece que Marshall, de “How I Met Your Mother”, tenha sido uma escolha avisada.













domingo, 16 de agosto de 2015

terça-feira, 11 de agosto de 2015

a most violent year






A Most Violent Year (2014), J. C. Chandor

inconveniência necessária

"Nunca a tinha visto nua, envergonhei-me. Hoje posso dizer que foi a vergonha de pousar com prazer o olhar no seu corpo, de ser testemunha participante da sua beleza de rapariga de dezasseis anos, poucas horas antes que o Stefano lhe tocasse, a penetrasse, a deformasse, talvez, engravidando-a. Nessa altura foi apenas uma tumultuosa sensação de inconveniência necessária, uma situação em que não se pode voltar os olhos para outro lado, não se pode desviar a mão sem reconhecer a nossa perturbação, sem a declarar precisamente com esse retraimento, sem entrar em conflito com a imperturbada inocência de quem está perturbando, sem exprimir, com essa rejeição, a violenta emoção que te domina,  e por isso te obrigas a ficar, a pousar o olhar nas costas de rapaz, nos seios com mamilos inteiriçados, nas ancas estreitas e nas nádegas rijas, no sexo negro, nas longas pernas, nos joelhos macios, nos tornozelos sinuosos, nos pés elegantes; e fazes de conta que nada se passa, quando afinal tudo está a acontecer, presente, ali, no quarto pobre e escuro, em redor a mobília miserável, sobre um pavimento irregular manchado de água, e agita-se-te o coração, imflamam-se-te as veias.
      Lavei-a com gestos lentos e cuidadosos, primeiro com ela acocorada no recipiente, e depois pedindo-lhe que se pusesse em pé, e ainda tenho nos ouvidos o ruído da água a gotejar, e ficou-me a impressão de que o cobre da tina era de uma consistência não diferente da carne de Lila, que era lisa, rija, calma. Tive sentimentos e pensamentos confusos: abraçá-la, chorar com ela, beijá-la, puxar-lhe os cabelos, rir, fingir competências sexuais e instruí-la com voz douta, distancia-la com as palavras, justamente no momento de maior proximidade. Mas por fim ficou-me apenas o pensamento hostil de que a estava a lavar da cabeça as solas dos pés, de manhã cedo, só para que Stefano a sujasse durante a noite. Imaginei-a, nua como estava naquele momento, cingida ao marido, no leito da casa nova, enquanto o comboio estrepitava por baixo das janelas, e a carne violenta dele  entrava nela com um golpe seco, como a rolha de cortiça empurrada pela palma da mão para dentro do gargalo de uma garrafa de vinho.  E de repente pareceu-me que o único remédio para a dor que estava sentindo, que sentiria, era encontrar um recanto bastante retirado para que Antonio me fizesse a mim, as mesmas horas, exatamente a mesma coisa."

Elena Ferrante, A Amiga Genial, p. 249. 

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

rentrée

jornal i# 31: A ambiguidade de Hélia Correia


Ontem, no i,

Hélia Correia (HC) era uma autora discreta da literatura portuguesa até que o seu telefone tocou anunciando que ganhara o prémio Camões. Isto ocorreu numa altura em que estava, segundo a própria, no máximo do seu isolamento. 

Há desde logo esta primeira ideia que confirma um estágio de solidão ou “infelicidade” comum a alguns escritores. Depois há “Bastardia” (2005), que li antes do anúncio do prémio. Este é um livro que, de uma forma ou de outra, nos ataca por todos os lados: pela personagem principal, Moisés, que sentia uma “estranha comoção que transtornava os tios” tocado por uma ansiedade que, pela ausência de um objeto indefinido, é horrível; pelo vocabulário áspero e cruel que a autora imprime ao longo de todo o texto reflexo do ambiente que descreve de vidas que se vão costurando enquanto o amor anda a par com a dor; e também pela súbita memória, violenta, de sair da terra que nos viu nascer. 

Mas HC saiu do seu isolamento para receber o prémio Camões, que dedicou à Grécia.  Pouco depois foi convidada a participar numa sessão pública de solidariedade com a Grécia em que dissertou redonda e nervosamente, inflamada pelos seus colegas de colóquio (Francisco Louça, Pacheco Pereira, Mariza Matias,  Manuel Alegre, et al), comparando mesmo a “ditadura da economia e das finanças” em que alegadamente vivemos aos tempos de... Salazar! 

Tudo isto para dizer que a ambiguidade do autor e da obra, sobretudo na ressonância equivocada que pode ter em nós, é extraordinária. Haverá diferenças entre um autor de direita e um de esquerda? Poderemos dividir a qualidade artística do escritor nestes termos? E a Humana será divisível? O escritor também é pessoa e, por isso, complexo e contraditório. Também por isso, irredutível às suas convicções ideológicas.