domingo, 6 de setembro de 2015

num dia de Abril

"Num dia de Abril, a seguir ao almoço, o meu marido anunciou-me de repente que queria deixar-me. Fê-lo enquanto levantávamos a mesa, as crianças brincavam como de costume numa divisão ao lado, o cão sonhava entre rosnidos junto ao aquecedor. Disse-me que estava confuso, a viver momentos difíceis de cansaço, de insatisfação, talvez de fraqueza. Falou muito dos nosso quinze anos de casamento, dos filhos, e admitiu que não tinha acusações a fazer-nos, nem a eles, nem a mim. Manteve uma atitude comedida, como sempre, à excepção de um gesto exagerado da mão direita ao explicar-me, com um esgar infantil, que ouvia certas vozes quase imperceptíveis, uma espécie de sussurro, que o impeliam a ir-se embora. Depois, assumiu a culpa de tudo o que estava a acontecer e fechou cuidadosamente a porta de casa atrás de si, deixando-me petrificada ao pé do lava-louças. 

Elena Ferrante, Crónicas do Mal de Amor, p. 135

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Em defesa da UE na crise dos refugiados




"(...) A imprensa tem colocado a questão como sendo uma crise humanitária que o Ocidente, em concreto a Europa, deve resolver e aparentemente não o tem conseguido fazer. Mas será que, mais do que criticarmos a Europa, não deveríamos enfatizar o papel generoso e a sua atuação altruísta na integração de refugiados e emigrantes ao contrário de muitos países islâmicos – com a exceção dos países fronteiriços com a Síria naturalmente incapazes de erguer fronteiras – que se limitam a criar barreiras, fechando-se, para que essas pessoas lá não cheguem? Por outro lado, a Europa não tem culpa de um problema que é um dos mais antigos da História da Humanidade nem lhe devemos exigir que, com uma varinha mágica, o resolva. A imagem daquela criança morta toca-nos profundamente, o desejo de a socorrer corre-nos no ADN, o ímpeto é fazer qualquer coisa, mas o que seja essa coisa é secundário e, para alguns, vai desvanecendo com o passar do tempo. Não seriamos humanos se não sentíssemos um espasmo de choque; mas a responsabilidade da morte da criança não é culpa da Europa mas, isso sim, de Assad ou do ISIS(...)"


O texto completo, aqui

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Jornal i#34: Porque vos escrevo*?

Hoje, para o jornal i:

"A 4/10 temos eleições e sinto que é o meu dever alertar para todas os desaires que marcam o meu percurso enquanto candidato e que refletem o desnorte do PS. Como autarca fazia isto todos os dias na reunião da câmara e na rua. Mas na campanha nacional é mais difícil, eu não estava habituado, por isso decidi ter uma conversa convosco através desta carta depois de Pedro Passos Coelho e Paulo Portas o terem feito.

O primeiro fator foi a minha postura aquando da vitória do Syriza: um “sinal de mudança que dá força para seguir na mesma linha”. Recentemente, tentei dar a volta confessando uma “identidade” com uma antiga líder de um “partido de direita ultra liberal”, mas era “tarde demais para vencer a depressão, a descrença e a resignação a um sentimento de decadência do PS  e reconstruir um sentimento de esperança coletiva”.

Segundo, a respeito da polémica dos cartazes, havia “duas opções de fundo em confronto”: o nosso modelo de invenção de histórias de vida inexistentes e o anterior modelo de promessa de 150 mil empregos. Abdicando do segundo – executado depois de fazermos as contas novamente para chegarmos à conclusão de que, desta vez, podíamos prometer mais – optámos pelo primeiro.

Terceiro, porque temos de “virar a página da austeridade para relançar a economia, criar emprego de qualidade e com futuro” apresentei um cenário macro económico que só posso apresentar, hoje, graças ao trabalho da coligação PàF. Em 2011 seria, obviamente,  impossível depois de tantos anos de governação socialista.

Por hoje é tudo, vou comer um hamburger com a minha Fernanda, até amanha."


*Este texto corresponde a uma adaptação à primeira carta de António Costa aos “indecisos”.

sábado, 29 de agosto de 2015

é preciso alongar

«Estamos cansados, estamos feridos, e principalmente estamos confusos. Está tudo num ritmo que é muito mais acelerado que a nossa própria respiração, um ritmo que não nos é natural. Parece que agora tudo acontece à nossa frente, à frente dos passos que conseguimos dar. [...] Ninguém consegue fazer uma corrida sem alongar de vez em quando. O mundo, principalmente o mundo ocidental, está preso à corrida. É preciso alongar a cabeça e o coração, é preciso sossegar.»
Matilde Campilho no Jornal de Negócios de ontem.





quinta-feira, 27 de agosto de 2015