segunda-feira, 21 de setembro de 2015

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

insignificante partícula de vida

quando mudamos de cidade, de casa, de hábitos, de vida em geral, há qualquer coisa que fica no meio, in between, a pasmar no fluir do tempo. Chamar-lhe-ei uma "insignificante partícula de vida", à deriva, no Cosmos. Mas desconfio que a sua verdadeira natureza se prende com esta dupla existência e, a confirmar-se, talvez não seja assim tão insignificante.

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Jornal i #35 A demagogia da esquerda no tema da emigração

Publicado no jornal i, de hoje:


Foi recentemente editado pela Bertrand um estudo intitulado “Fuga de cérebros. Retrato da emigração qualificada portuguesa”, do qual destaco 2 conclusões: (i) este tipo de emigração aumentou ao longo da última década, registando uma taxa de crescimento de 87,5% entre 2001 e 2011; e (ii) os destinos são Reino Unido, Alemanha e França. Ora essa, então a emigração massiva não se tinha iniciado com a chegada da Troika? Afinal, este movimento fez já parte da época em que os socialistas desgovernaram Portugal, entre 2005 e 2011. Pelo que podemos concluir que a retórica da emigração é mais uma marca demagógica da esquerda com Alzheimer e do imediatismo com que analisa a realidade.

Parte da emigração recente, qualificada, é uma consequência inevitável do ajustamento mas uma certa higiene política deveria levar a que o PS tivesse o pudor de não atacar aquilo que é uma consequência da sua desgovernação e seria bom que vissem além do óbvio. É que chega a ser esquizofrénico: os mesmos que nos integraram na Moeda Única, que celebraram Tratados Europeus, que fomentam a liberdade de circulação, que alimentam desde tenra idade o contacto com redes universitárias, programas Erasmus, ensino reconhecido com Bolonha, são incapazes de separar aquilo que é o efeito natural da globalização nos fluxos migratórios, a existência de um mercado profissional global altamente competitivo, a atração inevitável dos centros urbanos mais cosmopolitas, daquilo que são as causas específicas do nosso atraso relativo face ao mundo mais evoluído.

A circulação no espaço global veio para ficar. A minha geração dispensa políticos “calimero”, mas precisa de políticos que em vez de falirem constantemente o país se preocupem em fazer de Portugal um país estruturalmente atrativo para a geração qualificada, com menos fardo para as gerações futuras, com uma Segurança Social geracionalmente equilibrada, com menos impostos e menos dívida. Se fizerem isso, nós faremos a nossa parte.





coisas que nos espantam a alma



Nessun Dorma

domingo, 6 de setembro de 2015

num dia de Abril

"Num dia de Abril, a seguir ao almoço, o meu marido anunciou-me de repente que queria deixar-me. Fê-lo enquanto levantávamos a mesa, as crianças brincavam como de costume numa divisão ao lado, o cão sonhava entre rosnidos junto ao aquecedor. Disse-me que estava confuso, a viver momentos difíceis de cansaço, de insatisfação, talvez de fraqueza. Falou muito dos nosso quinze anos de casamento, dos filhos, e admitiu que não tinha acusações a fazer-nos, nem a eles, nem a mim. Manteve uma atitude comedida, como sempre, à excepção de um gesto exagerado da mão direita ao explicar-me, com um esgar infantil, que ouvia certas vozes quase imperceptíveis, uma espécie de sussurro, que o impeliam a ir-se embora. Depois, assumiu a culpa de tudo o que estava a acontecer e fechou cuidadosamente a porta de casa atrás de si, deixando-me petrificada ao pé do lava-louças. 

Elena Ferrante, Crónicas do Mal de Amor, p. 135

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Em defesa da UE na crise dos refugiados




"(...) A imprensa tem colocado a questão como sendo uma crise humanitária que o Ocidente, em concreto a Europa, deve resolver e aparentemente não o tem conseguido fazer. Mas será que, mais do que criticarmos a Europa, não deveríamos enfatizar o papel generoso e a sua atuação altruísta na integração de refugiados e emigrantes ao contrário de muitos países islâmicos – com a exceção dos países fronteiriços com a Síria naturalmente incapazes de erguer fronteiras – que se limitam a criar barreiras, fechando-se, para que essas pessoas lá não cheguem? Por outro lado, a Europa não tem culpa de um problema que é um dos mais antigos da História da Humanidade nem lhe devemos exigir que, com uma varinha mágica, o resolva. A imagem daquela criança morta toca-nos profundamente, o desejo de a socorrer corre-nos no ADN, o ímpeto é fazer qualquer coisa, mas o que seja essa coisa é secundário e, para alguns, vai desvanecendo com o passar do tempo. Não seriamos humanos se não sentíssemos um espasmo de choque; mas a responsabilidade da morte da criança não é culpa da Europa mas, isso sim, de Assad ou do ISIS(...)"


O texto completo, aqui