quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Jornal i #37 O individualismo cru de Jonathan Frazen


Andreas, jovem habitante da República Democrática Alemã, um predador natural, como é insinuado pelo seu emblemático apelido à la Dickens, personaliza uma das críticas de Purity ao comunismo: a sua tentativa de negação de um “lobo” na Humanidade, de um jovem que constrói a sua individualidade, ainda que censurável, que pensa e age por conta própria, sem “pensar no coletivo”, sem suprimir os seus “desejos egoístas” (e, diga-se, excessivamente carnais) e, por isso, sem colocar à frente os “objetivos do coletivo”. 


Em “Purity” subjaz inequivocamente uma ideia de individualismo exacerbado, cru e violento, porventura compreensível como antídoto contra a nefasta experiência coletivista de que Wolf é vítima. Ainda assim, quando percebemos que, num mundo pós 1989, Wolf é um foragido, apesar de famoso pelas suas provocações, talvez Frazen nos queira dizer que, ainda hoje o mundo é um espaço hostil à individualidade, que é fonte de valor para si mesma, nesta vida que se consulta, se costura, surda, sonora, insana, entre um prefácio e um colofão. 

Ontem, para o jornal i.

terça-feira, 29 de setembro de 2015

Jornal i #36 - Não a um Papa político

Houve momentos na História recente em que os líderes da Igreja tiveram um papel fundamental no curso da Humanidade. Ninguém nega a importância de Eisenhower e Pio XII, ou Reagan e João Paulo II, no combate ao comunismo enquanto ameaça clara ao Cristianismo e ao mundo Livre.

A suprema ironia é termos hoje um Papa que escolheu como bandeiras políticas – não teológicas – algumas das que são erigidas por Obama e que têm na sua fundamentação o mesmo gene das doutrinas comunistas. Na encíclica pró-verde “Laudato Si” Francisco surge como o mais recente aliado da crença nas alterações climáticas e na necessidade de salvação do planeta. Há uma diferença significativa entre a defesa da Ecologia e uma instrumentalização do Apocalipse como forma de combate ao capitalismo. A Ecologia dignifica o homem, responsabiliza-o pela utilização dos recursos, e convida-o a salvaguardar o planeta em prol das gerações futuras; é obrigação do Homem colocar o seu engenho para encontrar as formas mais eficientes de utilizar os recursos do Planeta, fomentando o bem-estar de todos, os de hoje e os do amanhã. Já o eco-fanatismo parte de uma crença não comprovada cientificamente, combatendo o modelo económico que inspira o nosso modo de vida, como forma de evitar a Morte iminente do planeta.   

O Papa Francisco escolheu para marcar a sua visita aos EUA toda uma série de causas políticas – emigração, clima, capitalismo, combate às desigualdades – que o colocam de um dos lados da barricada em matérias onde existem enormes clivagens ideológicas, afastando as atenções mediáticas dos temas de índole espiritual onde a Igreja precisa de dar repostas. O Papa tem as suas opiniões políticas; como Católica posso duvidar delas. Preferia ter de Francisco mais respostas espirituais, já que não me parece que um dueto Francisco/Obama consiga salvar o mundo do Apocalipse.  

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Jornal i#36 A "botonização" das emoções no Facebook


"Parece que Zuckerberg está a estudar a possibilidade de introduzir um botão “não gosto” no Facebook. Mas não será um botão que vote contra as atualizações dos outros porque não é esse o “tipo de comunidade que queremos”, esclareceu o multimilionário. Será um botão para expressar “empatia”, “uma maneira rápida de mostrar emoção”. Mas a empatia parece algo estranho a butonizar: “tem x gostos e y empatias”. Soa estranho, não?

A comunidade que Zuckerberg quer atingiu este Verão os 1,49 mil milhões de utilizadores. Além do aspeto quantitativo, essa comunidade – o modelo de negócio do Sr. Zuckerberg – não é, ao contrário do que se lê ao subscrever, “grátis” e o valor que cada um de nós paga é elevadíssimo: são dados pessoais (fotografias, textos, vídeos, localização, etc.) e preferências emocionais.

Na ampla e confortável comunidade que Zuckerberg quer  a interação humana reduz-se a uma botonização ingénua de emoções que, ainda por cima, se querem rápidas, fugazes, momentâneas, pouco rigorosas e pouco reais. Esta questão cósmica foi notícia a semana passada e reflete bem os nossos tempos, de igualitarismo afetivo, de padronização de gostos, de emoções fungíveis, de imediatismo, de intolerância à reflexão e à contemplação. Existirão ainda emoções verdadeiras ou apenas adjetivos extraordinários, como dizia O. Wilde? A existirem, as grandes emoções, arrebatamentos, mágoas, dores intensas, and so on, são destruídos, aniquilam-se, pela sua própria plenitude e, portanto, não são suportadas por botões. É essa, a meu ver, uma das regras que rege o mundo real e resta-me acrescentar que o senhor Zuckerberg está de acordo comigo."







segunda-feira, 21 de setembro de 2015