domingo, 13 de dezembro de 2015

uma descrição literária de Youth

"Mas o pai morreu - aos 80 anos, embora parecesse mais velho - num fogo lento de raiva eficaz. Acontece no rosto de alguns homens a carne descair por falta de exercícios de expressão, o homem que sente por detrás da pele deixa de precisar de a usar.(...)"


J, Howard Jacobson, p. 57.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

num autocarro algures em Lisboa

O cenário idílico: um autocarro, ao final de um dia cinzentão, a atafulhar de gente. Uma mochila às costas, com cerca de 1000 kg no interior (um ligeiro exagero, note-se), num exigente jogo de equilíbrio entre corpos cansados (e alguns suados) que se abalançam uns contra os outros e contra o mundo, depois de um dia de trabalho, agarrada à barra superior pela minha débil mão esquerda, viro a cara para deixar cair os olhos (mas, juro, a minha vontade era deixar-lhe cair em cima a mochila) numa senhora que, depois de muito me pisar várias vezes e de me dar sucessivos encontrões, interrompe uma discussão pelo seu telemóvel com o "mor", abre a boca e balbucia: menina, está a magoar-me MUITO no braço. Ao que eu respondi, não sei bem com que forças, com a paciência equilibrada nas profundezas da minha bondade, estou a fazer os possíveis para me agarrar, minha senhora. Mas...  Fiquei-me pelo mas quando percebi que a indivídua nem sequer se dignou olhar para mim para ouvir a minha explicação (inexplicável a não ser pelas circunstâncias a que todos estávamos sujeitos) e continuou no seu exercício de refilanço com o "mor", muito mais importante, com toda a certeza do Mundo, do Além, alheio a todo o tipo de circunstancialismo. 

bis

ainda a propósito deste post,




terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Jornal i #46 - Quanto sabe o Facebook sobre si?



Leio que “o Facebook (FB) é o site onde os europeus mais querem ser esquecidos”. Faz sentido sobretudo para os que conhecem Max Schrems que, em 2011, exigiu ao FB conhecer todos os dados recolhidos sobre si. Dois anos e uma batalha judicial mais tarde, o FB entregou-lhe 1200 páginas (!) contendo uma radiografia da sua actividade, dos seus gostos, das suas preferências, amizades, conversas, incluindo todas as localizações, computadores e gadgets em que acedeu ao FB.

Também a Google, à qual não mentimos e fazemos revelações mais íntimas do que à família, amigos ou mesmo ao padre, sabe se pensamos participar numa manif, se queremos fugir aos impostos, onde queremos jantar ou viajar, ou qual o cantor da moda que secretamente galamos. A Google é mais conhecedora que muitas possessivas e dedicadas esposas. Seguramente, sabe mais sobre mim do que eu, já que grava memória de tudo o que pesquisei desde sempre. E, se o leitor assistiu no YouTube a filmes menos recomendáveis, a Google sabe, e não se espante se, depois de uns minutos de visionamento furtivo, receber um sugestivo email propondo-lhe “enlarge your penis”. Tudo foi facilitado por uma política de “privacidade” implementada em 2012. E este “perfil” que a Google constrói sobre nós, com base nas interacções digitais a que tem acesso, é distinto da representação que apresenta a terceiros sempre que nos pesquisam – e é apenas aí que actua o “direito a ser esquecido”.

O tema é tratado como um problema de privacidade e de liberdade de expressão. Mas as implicações são também para a identidade pessoal, entendida como um processo dinâmico de (re)construção sobre o qual devemos ter controlo, se não absoluto, pelo menos parcial. Desse processo faz parte a possibilidade de, querendo, sermos diferentes de nós mesmos: de evoluirmos, de melhorarmos, de fazermos ruturas com algo na nossa personalidade passada, que decidimos alterar; ora, todas estas possibilidades da “memória digital” ilimitada ferem gravemente essa nossa esfera de domínio e controlo individuais. Afinal, quem quer ser recordado em 2015 que no ano 2000, a caminho do liceu, trauteava a letra de “Baby One More Time”?

Hoje, para o i.