quarta-feira, 13 de abril de 2016

a dança

há alguns anos que não nos cruzávamos. entretanto, envelheceu, um pouco mais magro, o rosto mais estreito e as feições esbatidas; doutorou-se, subiu na carreira e estava prestes a participar numa conferência de grande prestígio. quando nos cruzamos fiz questão de referir que tinha ido, de propósito, ouvi-lo. foi então que começou a dança. há pessoas cuja maneira de estar socialmente se assemelha a uma dança, a um ritual burilado: ao som de uma batida plena de harmonia, abalança o corpo praqui, depois prali, os gestos são coordenados e elegantes, os tiques - se os houver - são de apreço e cordialidade,  palavras alinhavas e confortavelmente colocadas numa narrativa composta por temas previamente pensados. sempre pontuais nos ensaios, não há como enganar nos passos, movimentos espasmódicos de grande beleza.

lá vão eles, dançando

quarta-feira, 6 de abril de 2016

foi assim mesmo

"fê-lo de sua espontânea vontade, sem preâmbulos."

História da Menina perdida - A Amigal Genial - Quarto Volume, Elena Ferrante, p. 129.

quarta-feira, 30 de março de 2016

Jornal i #58 - Lições dos inimigos da liberdade: PCP e Podemos

Ontem, para o i,

Por estes dias, a esquerda brinda-nos com belas lições e propostas arrojadas e, sobretudo, perigosas. Vejamos o que nos ensinou o deputado comunista Miguel Tiago, que já em 2012 ameaçava, com declarações bombásticas, o direito de propriedade privada da “corja” que desprezava a Constituição – curiosamente, um admirador das liberdades e dos sucessos económicos do comunismo soviético, do regime norte-coreano do querido líder Kim Jong-il, do castrismo comunista cubano e do chavismo venezuelano: “O terrorismo, a pobreza, a fome, o desemprego, os baixos salários, a criminalidade, a guerra, a degradação cultural, artística, social e ambiental resultam das políticas da direita.” Repita a lição várias vezes, caro leitor, e será um comunista apto a empunhar o livrinho vermelho de Mao.


Mas também de Espanha nos chegam propostas arrojadas de uma esquerda supostamente mais moderninha nos modos: o Podemos. Na sequência de declarações, ao “Daily Mail”, do conhecido imã britânico Anjem Choudary, propondo ao Tribunal Europeu dos Direitos do Homem a eliminação da Semana Santa em Espanha, eis que o Podemos veste a camisola dos nuestros hermanos musulmanes por considerar que, além da ofensa aos muçulmanos, as procissões são atos que “atrasam a sociedade”. Não haveria qualquer obstáculo a esta proposta arrojada caso a nossa “sociedade atrasada” não consagrasse um principiozinho chamado liberdade religiosa.

Por outro lado, o recuo do cristianismo na Europa tem consequências. Entre elas, a ignorância abissal sobre a história da civilização a que se pertence. A esquerda considera-o um “progresso”, uma libertação de “dogmas”, de “fantasias”. Só que essa libertação não lida apenas com questões transcendentes, atinge outras: igrejas, estátuas, museus, tradições, hábitos, celebrações – todo um legado material e civilizacional do Ocidente, indecifrável para um número considerável de analfabetos.

Adenda: este texto deu origem a uma pequena controvérsia entre mim e uma tal senhora professora. Toda a história aqui e aqui

Jornal i #57 - Corrupção no Brasil: um mal menor


Com atraso, o texto para o i da semana passada:

No momento em que escrevo, Lula já não é ministro do país que deu o samba ao mundo. Mais uma vez. Enquanto o nosso governo se preocupa em desfazer as medidas do governo PàF, sem apresentar alternativas (veja-se o caso do fim dos exames), do outro lado do Atlântico, o princípio da separação de poderes deu lugar ao princípio da confrontação de poderes. A nomeação de Lula como ministro-chefe da Casa Civil, em substituição de Jaques Wagner, é isso mesmo: uma tentativa de o poder executivo manifestar a sua força sobre o poder judicial. Lamentavelmente, a presidenta não terá lido Montesquieu, estando demasiado ocupada na luta armada enquanto membro do Comando de Libertação Nacional e da Vanguarda Armada Revolucionária, mas está lá. No capítulo iv, livro vi, sobre liberdade política, diz o espírito das leis: “C’est une expérience éternelle que tout homme qui a du pouvoir est porté à en abuser (...) Pour qu’on ne puisse abuser du pouvoir, il faut que, par la disposition des choses, le pouvoir arrête le pouvoir.”


Face a isto, o PCP, partido que sustenta o atual governo, com a tradicional argúcia acrobática argumentativa a que já nos vem habituando, justifica a convulsão brasileira, sem qualquer alusão à corrupção (um mal menor, imagino...), com a “crise do capitalismo” (implementado por Dilma ou por Lula, já agora?) e condena a operação de desestabilização e de “cariz golpista” que está a decorrer no Brasil, manifestando-se solidário “com as forças progressistas brasileiras”.

Portanto, o PCP não reconhece vícios na nomeação de Lula da Silva, não reconhece a ordem judicial a decretar a prisão preventiva do mesmo e entende que as manifestações da sociedade civil contra o governo, organizadas em dias de descanso (domingos, em regra) para não causar transtorno ao trabalhador, são de “cariz golpista”. Pergunto, então, ao PCP, se o capitalismo está em crise no Brasil, qual é o modelo a seguir? O soviético, o venezuelano, o albanês, o norte-coreano? Ou haverá outro exemplo de sucesso?

quinta-feira, 17 de março de 2016