sexta-feira, 20 de janeiro de 2017
terça-feira, 10 de janeiro de 2017
é sempre assim
"Oh, Lucy", disse-lhe a mãe, as pestanas molhadas contra a sua cara, "sê feliz. Podes ser, desde que tentes. Foste tão feliz em criança ...
Quando ela era boa, Philip Roth, 2016, Publicações D. Quixote
domingo, 8 de janeiro de 2017
o que ainda temos
Quando vi o último filme de Mia Hansen-Løve tive a sensação de que a personagem de Huppert inicia uma fase nova na sua vida (afinal é isso o que está por vir) que começa com a morte da Mãe, com o divórcio, com o fim da publicação dos seus livros que anuncia a sua reforma, com o nascimento de um neto e com uma nova relação com um antigo aluno. Há dois factores que lhe permitem construir (e aproveitar) o que está por vir, essa nova fase marcada por uma libertação definitiva, por um corte com o passado: a natureza irreversível de todos aquelas marcos ou pontos de viragem da vida de Huppert (a morte da mãe, a aproximação da reforma e do fim de uma carreira, o nascimento de uma criança) e o caráter ou maneira de ser da personagem marcado por um certo conformismo ou resignação.
O problema com que me tenho deparado, sobretudo na vida de algumas pessoas que me são próximas é, em primeiro lugar, a dificuldade em lidar com o sofrimento, com o vazio que essa libertação provoca e, muitas vezes, com a trágica ausência de um corte radical, decisivo e final. É, talvez, um problema meu e dos que me rodeiam; um problema do nosso caráter: de rejeição do que esta por vir. Não por teimosia mas por esperança em conseguir manter o que temos no presente ou por força de uma enorme vontade em preservar os cadinhos de passado no presente. É uma espécie de inconformismo que nos leva a lutar pela vida, pelas relações amorosas e familiares, por uma vida profissional melhor, procurando, ao mesmo tempo, evitar mudanças no passado, prolongar os bocadinhos de passado no presente ou desfrutar do lado bom do presente. O que está por vir não nos interessa enquanto nos agarramos, com unhas e dentes, àquilo que (ainda) temos.
O problema com que me tenho deparado, sobretudo na vida de algumas pessoas que me são próximas é, em primeiro lugar, a dificuldade em lidar com o sofrimento, com o vazio que essa libertação provoca e, muitas vezes, com a trágica ausência de um corte radical, decisivo e final. É, talvez, um problema meu e dos que me rodeiam; um problema do nosso caráter: de rejeição do que esta por vir. Não por teimosia mas por esperança em conseguir manter o que temos no presente ou por força de uma enorme vontade em preservar os cadinhos de passado no presente. É uma espécie de inconformismo que nos leva a lutar pela vida, pelas relações amorosas e familiares, por uma vida profissional melhor, procurando, ao mesmo tempo, evitar mudanças no passado, prolongar os bocadinhos de passado no presente ou desfrutar do lado bom do presente. O que está por vir não nos interessa enquanto nos agarramos, com unhas e dentes, àquilo que (ainda) temos.
terça-feira, 3 de janeiro de 2017
Jornal i #92 - Construir o futuro
O texto de hoje para o i,
2016 consagrou um novo politicamente correto, sobretudo entre os aspirantes a intelectuais, que passa por criticar as redes sociais como fonte de boa parte dos problemas da contemporaneidade. Podemos ler com frequência e quase até à náusea que as novas plataformas são fonte de notícias falsas e de uma suposta desinformação; estimulam a digitalização da vida social, o isolamento e o alheamento humano; o “algoritmo” é frequentemente invocado – mesmo por aqueles que não compreendem o que seja – para fundamentar o controlo que a cibernética exerce sobre as nossas vidas; a tecnologia terá sido a causa da agonia das mediações jornalísticas tradicionais.
Não negando a pertinência dos fundamentos apresentados (aliás escrevi há umas semanas atrás neste jornal um texto sobre a série da NetFlix, “Black Mirror”), e não querendo construir uma apologia às ditas plataformas e redes, a verdade é que me parecem curtos e pouco conclusivos os argumentos apresentados.
Desde logo, porque o impacto das redes e das plataformas não é de agora, tendo ganho uma relevância incontornável em muitos dos eventos mais relevantes do planeta nos últimos anos, com um papel fundamental em movimentos sociais tão variados como o “Occupy”, a Primavera Árabe, ou a eleição de Barack Obama e de Donald Trump.
Acresce que assumir uma postura saudosista e neo-ludista que se esgota na rejeição da evolução tecnológica e numa apologia do que “já-não-voltará-mais” não oferece grandes soluções para responder aos contornos de um presente e um futuro inevitáveis. Mais do que simplesmente rejeitar a tecnologia (na maior parte das vezes apenas de uma forma meramente teórica, porque no final poucos são os que verdadeiramente abdicam dela) e culpá-la por aquilo que ela nos trouxe – e, reforço, partilho de um certo ceticismo em relação ao impacto que a cibernética trouxe para a privacidade, a proteção de dados, e o condicionamento do cidadão e da formação da sua personalidade de modo autónomo e livre –, há que saber ir mais além e encontrar mecanismos de resposta, sejam normativos, sejam sobretudo filosóficos e conceptuais, que acompanhem a mudança, como já tem ocorrido ao nível das políticas públicas que quer a União Europeia quer os EUA têm vindo a apresentar sobre a “internet das coisas” ou a “inteligência ambiente”, ou até sobre os problemas das novas intermediações sociais promovidas pela tecnologia e da iliteracia digital. Com frequência as tecnologias causam disrupções na cultura e na forma de viver do Homem, e nem sempre as mesmas representaram evoluções na história da Humanidade.
A solução nunca foi, porém, rejeitar a mudança, mas refletir sobre ela, construindo novas e renovadas contemporaneidades que têm feito dos novos tempos, épocas de evolução e de progresso ao serviço do Homem.
Jornal i #91 - Uma mulher na Casa Branca
O último texto de 2016 para o jornal i,
O movimento feminista persiste em ficar de luto depois de Hillary Clinton ter falhado a conquista da Casa Branca em Novembro passado. Não devia.
Numa eleição em que o Presidente foi eleito com menos de dois milhões de votos, o papel de Kellyanne Conway, que assumiu a gestão da campanha de Donald Trump num momento crítico e foi recentemente nomeada conselheira principal do presidente, foi fundamental. Não é exagero dizer que Conway é, neste momento, a mulher mais influente de Washington. Ainda assim, imagino que esta afirmação cause algum espanto por força da distração forçada em torno desta mulher a que os media nos obrigam. Desconfio que, caso Conway fosse Democrata e não Republicana, seria já um badalado ícone feminista.
Aos 49 anos, mãe de quatro filhos, Conway foi a primeira diretora de campanha na história dos EUA que, de forma bem-sucedida, conquistou a Casa Branca. Esta especialista em estudos de opinião em torno do sexo feminino, iniciou a sua experiência nos bastidores do supostamente misógino Partido Republicano nos anos 80, quando integrou uma equipa de sondagens de Ronald Reagan. Self made woman, empresária, Conway aceitou ser conselheira do Presidente Trump tendo rejeitado um cargo com mais relevo na Administração presidencial, por entender que seria incompatível com a sua vida familiar. Em vez de criticar esta escolha de Conway, o movimento feminista devia ver em Conway um exemplo do sucesso da sua causa: a expansão de oportunidades para as mulheres permitindo-lhes, verdadeiramente, escolher como conciliar a vida profissional com a vida familiar.
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