quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

sonhos de menina

foi há mais ou menos 10 anos que a minha irmã decidiu realizar um dos meus "sonhos de menina". Naquela altura ainda fechávamos "pistas" de discotecas a horas altamente pornográficas. Lembro-me bem da última música que o Rui tocou. Era a minha preferida.









quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

now's the moment

Jornal i #95 - O folclore da resistência ao "trumpismo"

Ontem para o i,

Por muito que nos custe, Donald Trump (DT) já prestou juramento no Capitólio e, pelo conteúdo do seu discurso de investidura, está determinado a cumprir as promessas que apresentou durante a campanha. Aliás, prova disso é a revogação imediata do Obamacare que aproveitou, num instantinho, para concretizar através de uma ordem executiva enquanto Melania (afinal lá encontrou um costureiro de bairro que a vestisse...) trocava um dos seus elegantes outfits. 
Após as cerimónias, várias reações se manifestaram aos mais variados níveis.

A comunicação social, que aparentemente continua frustrada com os seus prognósticos fracassados sobre o ato eleitoral americano, entretém-se (e entretém) a comparar fotografias da tomada de posse de Obama e de Trump, a afluência no metro, etc., desviando-se do debate que se impõe sobre, por exemplo, as consequências da política keynesiana que Trump quer implementar ou da sua política energética. Mas o verdadeiro happening foi no dia seguinte à investidura. Refiro-me à marcha pelas mulheres, com células dispersas em todo o mundo ocidental que, não fosse a sua estranha e folclórica composição, teria tudo para representar um despertar saudável da sociedade civil em face desta espécie de novo mundo que se anuncia e cuja regras ainda não conhecemos: mulheres com t-shirts com a inscrição “I love Islam”, vegans empunhando cartazes onde constava “Vegans against Trampa”, ambientalistas proclamando “Facts count.

Climate change is real”, pessoas com cartazes com inscrições como “Eradicate men” ou “Free Melania”, até às atoardas “I’m quite unhappy”, “Quite annoyed” ou “I am very upset”. A diversidade e pluralidade dos participantes nesta manif e o pot- -pourri de “causas” eram tais que não se compreende se a dita era contra a misoginia de DT, contra os males do mundo ou uma ode coletiva de ódio aos homens. Certo é que ficou registada para a História em pensos higiénicos espalhados (não brinco!) nos bancos do Mall em DC. Entre nós, esta esquizofrenia de bojardas contra tudo e contra nada, que atua como uma espécie de anestesia para os portugueses se distraírem dos problemas do próprio umbigo, contou com a presença de personalidades como Marisa Matias.


Encher as ruas com esta multidão caótica em que ativistas, cada um com os seus achaques, se entretêm a berrar o seu quinhãozinho de absoluto, a empunhar um cartaz com a sua causa, a vociferar de forma enfaticamente desatinada “Fuck you” (como fez Madonna), é, do ponto de vista de quem participa, um descargo de consciência, e, do ponto de vista de quem assiste, um gathering mediatizado bastante divertido. Mas esta estratégia (ou falta dela) de contágio emocional das massas, o discurso deslegitimador incoerente e a diabolização da figura de DT não serão seguramente mecanismos de resistência eficazes (ainda que democráticos) e apenas permitem que o novo presidente continue a cavalgar, ainda mais, neste ambiente de caos.

Jornal i #94 - Na morte de Zygmunt Bauman

Atualizando prosas do i,

De facto, este início de 2017 já leva consigo várias personalidades nacionais e internacionais. Além de Mário Soares, a Europa perdeu Zygmunt Bauman. O sociólogo polaco, sempre preocupado em escrever para as pessoas comuns e, por isso, fugindo a uma linguagem hermética, é o autor da “modernidade líquida”, uma fórmula para diagnosticar a realidade contemporânea.

A “liquidez” - expressão que carrega uma carga conceptual de tal modo ampla que foi até aplicada por Paulo Cunha e Silva para pensar o Porto, cidade “líquida” - é, em Bauman, o conceito-chave para a crítica às várias “formas da vida moderna”: das relações amorosas às instituições sociais e políticas, o sociólogo aponta-lhes fragilidade e enuncia a sua natureza descartável, e, sobretudo, a sua vulnerabilidade à mudança, fonte de inquietantes incertezas. Considerar Bauman um “pessimista” é, no mínimo, redutor. Aliás, o próprio o rejeitava.

Os temas abordados na sua vasta obra são bastante variados (Holocausto, globalização, sociedade de consumo, amor, comunidade, individualidade), mas o aspeto em comum é uma intenção de salientar um dever ser (não jurídico), uma dimensão (e reflexão) moral ou ética que deveria nortear tudo o que respeita à condição humana, dimensão essa castrada ou “abafada” pelo triunfo do racionalismo e pelo individualismo enraizados na modernidade. Por isso, o seu diagnóstico incide sobretudo na condição moral da pós-modernidade.

Tal como sucede com outros gurus da pós- -modernidade, a sua reflexão crítica sobre a modernidade e os seus fracassos e a nostalgia em relação a outros tempos, “pré- -modernos”, são profundamente inconsequentes diante de todo o legado institucional que o homem foi conquistando, incluindo conquistas civilizacionais (e até morais) permitidas pela ciência e pela razão, motores de desenvolvimento da humanidade.

Por outro lado, a grelha teórica pós-moderna de Bauman conduz a um certo relativismo que acaba por refletir a “liquidez” pelo próprio diagnosticada. Depois, acrescentar ao predicado pós “moderno” significa reconhecer a existência de uma rutura com uma outra realidade ou temporalidade, diferente e anterior e, ao mesmo tempo, anuncia uma alternativa sistemática e coerente de ideias correspondentes a um outro modo de ser e de viver. O que, de resto, não acontece. A pós-modernidade continua a ser apenas um rótulo para um conjunto de ideias e noções definidas, quase acriticamente, por mera oposição ao que é moderno.

Jornal i #93 - Um Kamasutra para crianças?

Atualizando prosas no i,

O leitor não deve ficar chocado com a pergunta que coloco no título. É que, em rigor, o Kamasutra para crianças existe. E, imagine, goza do alto patrocínio do Estado português na sua qualidade de grande educador das massas. Ainda assim, nem tudo está perdido: pelo menos, do conteúdo do dito manual não constam imagens explicativas. Refiro-me a um documento datado de outubro de 2016 cujo título é “Referencial de Educação para a Saúde”, carimbado pela Direção- -Geral da Saúde e pela Direção-Geral da Educação, com o objetivo de promover “a educação para a saúde em meio escolar”. É neste pedaço de prosa que se encontram as diretrizes e orientações no que respeita, entre outros temas, aos “Afetos e Educação para a Sexualidade”, dissecados em subtemas, objetivos e metas a atingir. 

No que respeita à educação para a sexualidade (em relação aos afetos sabemos bem quem é o titular da cátedra...), o referencial pedagogicamente explica que, apesar da ubiquidade do sexo, a escola é o local onde os alunos [do pré-escolar e do ensino básico] manifestam, de forma mais impressiva, os desenvolvimentos sexuais nos vários ambientes, incluindo “na relação com os docentes e trabalhadores”. A prosa social construtivista desenvolve-se entre orientações várias no que respeita às “relações afetivas” e aos valores” até ao subtema 4, sob o manto diáfano do “desenvolvimento da sexualidade, onde se prevê, em antecipação precoce do processo de erotização natural de de-senvolvimento infantil, o objetivo de os alunos do pré-escolar adquirirem “uma atitude positiva em relação ao prazer e à sexualidade. O Estado quererá ensinar bebezinhos de três anos a ter prazer? Por fim, o referencial propõe ainda ensinar os alunos do 2.o ciclo (5.o e 6.o anos) a distinção entre interrupção voluntária e involuntária da gravidez. 

Não faltará muito para que, copiando o exemplo brasileiro, o governo distribua um kit de prevenção contra a homofobia recheado de “manuais escolares” e outro tipo de “material” que estimula experiências autoeróticas e homossexuais. É, contudo, lamentável que o Estado arrogue para si o direito de, através de um manual de instruções, construído de forma centralizada, definir unilateralmente um modelo único de educação para a sexualidade. Profundamente relacionadas com o conjunto de valores que cada família escolhe, em liberdade, as escolhas quanto à educação sexual devem, impreterivelmente e em primeira instância, passar pelo crivo familiar, pelo respeito pela sensibilidade, pelas questões de consciência e pela autonomia dos pais.