segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017
quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017
terça-feira, 7 de fevereiro de 2017
Jornal i #97 - "Moonlight" e "The Wire": a busca por um projeto de felicidade
Hoje para o i,
A comoção com “Moonlight”, a longa-metragem de Barry Jenkins com 8 nomeações para os óscares, tem sido geral. Não sou exceção. Não sei do que gostei mais: se das belíssimas imagens, da banda sonora ou da história. Baseada no texto não publicado “In Moonlight Black Boys Look Blue”, de Tarell Alvin McCraney, um autor que cresceu em Miami, no bairro de Liberty City, onde o filme se desenvolve, a narrativa centra-se numa personagem, Chiron - pobre, negro, homossexual, criado por uma mãe (Naome Harris) que luta contra um vício de crack -, ao longo de três fases diferentes da sua vida. Se Chiron representa o violento “way of life” dos afro- -americanos que vivem marginalizados nos subúrbios das metrópoles americanas, também é verdade que a marginalidade de Chiron é existencial. A sua alienação manifesta-se, logo em menino, num rosto vincado, um olhar sério e desconfiado, uma postura frágil, de temor e de hipervigilância, de quem desde criança se viu obrigado a defender-se de tudo e de todos. Retraído, pouco sorridente, o espetador quase não o vê brincar, o que facilmente se compreende como inevitável naquela dolorosa experiência de vida. A empatia com Chiron é talvez o ponto mais forte do filme, em muito devida à intensidade notável da representação dos três atores escolhidos para cada uma das fases retratadas.
Tem-se dito que este é um filme dos nossos tempos - “trumpianos”, entenda-se. Não concordo. O filme de Jenkins desenvolve-se como um episódio da segunda melhor série de sempre: “The Wire” (quanto a mim, “Os Sopranos” está no topo da hierarquia). Está certo quem diz que “Moonlight” se aproxima de uma recriação lírica de um episódio de “The Wire” realizado pela francesa Claire Denis, uma das referências de Jenkins. É que acompanhar a história de Chiron é relembrar os “boys of summer” em todas aquelas crianças de West Baltimore. Assistir à quarta temporada de “The Wire” é como testemunhar um acidente de comboio em câmara lenta: desde o início sabemos que Dukie, Randy, Namond, Michael serão “corner boys” e, mais cedo ou mais tarde, absorvidos pelo mundo implacável que os rodeia. Quando chega esse momento - algo a que somos poupados em “Moonlight” -, o estrondo é devastador. Quem esquece aquela mítica cena final do episódio 11 entre Randy, que acaba de perder a mãe, e o detetive Carver? Eu não.
Correndo o risco de elaborar uma generalização simplificada ou uma categorização pueril, “The Wire” é, tal como “Moonlight”, uma saga sobre a afirmação da individualidade, um documentário sobre a luta por um lugar no mundo, por uma identidade, por um projeto de felicidade, por uma vida diferente das circunstâncias de pobreza, corrupção, droga e violência que envolvem aquelas crianças.
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017
uma sociedade que não quer abdicar de nada
"A sociedade atual vive, portanto, enredada numa inextricável teia de paradoxos: promove um desenvolvimento técnico e cientifico acelerado, ciente de que assim gera problemas a um ritmo superior ao da sua própria capacidade para produzir o conhecimento necessário à sua resolução; exige cada vez maior segurança, num cenário que é precisamente marcado pela multiplicação e pela globalização dos riscos; reclama (e recebe) do Estado níveis de intervenção social e de atuação (preventiva e sucessiva) cada vez mais elevados, ignorando a situação de sobrecarga em que essas exigências o colocam, e retribuindo-lhe com desconfiança e insatisfação permanentes. Trata-se, bem entendido, de uma sociedade em que parece não querer abdicar de nada: nem das oportunidades e altos índices de bem-estar proporcionados pelo vertiginoso progresso tecnológico e científico; nem de elevados níveis de segurança para os bens que considera mais precioso e se encontram garantidos por um estatuto jurídico que assenta sobre extensos catálogos de direitos e liberdade. Sobretudo, é uma sociedade confinada ao tempo presente, que vive como se não houvesse futuro ou, pior, transferindo para as gerações vindouras muitos dos custos - ambientais, financeiros ou político - decorrentes das suas próprias opções e dos seus próprio modelos de desenvolvimento."
Jorge Pereira da Silva, Deveres de proteção de direitos fundamentais, Universidade Católica, 2015, p. 12.
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017
bingo
"O risco da tecnologia é que nos distraímos. Distraímo-nos pelo que fazemos e não por aquilo que somos. Podes fazer muita coisa com um smartphone na mão ou com o Echo, em casa. Essa capacidade de seres constantemente produtivo não é a mesma de seres reflexivo e pensativo, de estares focado no que significa realmente existir. Estamos tão ocupados a pedalar que não paramos e olhamos para as coisas que realmente interessam, para o que se passa nas nossas vidas ou no mundo em geral. (...) Aquilo que o digital faz, e particularmente o nosso telefone, é que cria um mundo de oportunidades ilimitadas do potencial que existe por aí. Tudo o que está acontecer a toda a hora nos outros sítios é mais sedutor do que o que se está a passar à tua frente, agora. Isso faz com que seja mais fácil para as pessoas perderem atenção sobre a sua família ou sobre o que acontece à volta delas, porque deve haver algo muito mais interessante a acontecer noutro sítio. Podes ver isso pela forma como as pessoas respondem às mensagens que recebem no telefone. Alguns de nós acreditam que a mensagem que está a chegar é a mensagem que vai dizer “eu amo-te” ou que ganhaste um milhão de euros ou que vais ter aquela grande promoção que querias tanto. Mas nunca é. É ocasionalmente, uma vez de cinco em cinco anos, se tiveres sorte. E depende da mensagem.
Acho que esse potencial do que está lá fora e o facto de termos acesso ilimitado a toda a hora, faz com que estejamos cada vez mais ligados a qualquer coisa. À medida que te ligas a tudo, o potencial do que está lá fora torna-se muito mais atraente do que o potencial que tens à tua frente. Quando isso acontece perdemos o foco e a capacidade de estarmos no momento. E acho que isso traz algumas ameaças reais sobre como realmente comunicamos e interagimos com as pessoas à nossa volta."
Entrevista a Mark Curtis, no Observador.
Jornal i #96 - Um "quarto poder" seletivo
Ontem para o i,
Noticiar não é apenas repetir acriticamente uma série de factos, mas também enquadrá-los no espaço e no tempo. Não há informação sem contexto. Contextualizar não implica sequer emitir opinião, mas obriga a um sentido vigilante por parte de quem informa. Os media não são meras plataformas para amplificar mensagens por parte de políticos e causas, mas órgãos de informação. Significa isso que se exige aos media que tenham atenção à mensagem que veiculam, para não se tornarem apenas em instrumento de propaganda. Na última semana, foram várias as notícias que nos mostraram como temos, enquanto leitores, de ser cidadãos vigilantes. No panorama internacional, os media apresentam-nos como inovadora a ideia de Trump de construir um muro para separar os EUA do México, intenção amplamente divulgada durante a campanha e a semana passada concretizada numa ordem executiva. Inovadora? Não, já que na fronteira do Arizona, Califórnia, Novo México e Texas com o México (são 3094 km), uma parte significativa do muro já está construída. Aliás, basta ouvir o discurso do presidente Clinton ao Congresso norte-americano, em 1995, num debate sobre o estado da nação, apresentando a chamada “Operation Gatekeep”, avaliar aquilo que foi a política de combate à imigração por parte de Obama ou até ouvir a entrevista a Hillary Clinton, em 2014, conduzida por Christiane Amanpour, para se perceber que a grande diferença no discurso de Trump face aos seus antecessores ou antagonistas democratas reside na intenção – esdrúxula, sem dúvida – de colocar o México a financiar a sua construção. Trump tem dado sinais claros de que pretende fechar ainda mais os EUA aos imigrantes e o seu estilo favorece o sensacionalismo, mas combater o populismo é também dar informação correta, devidamente enquadrada, e não apenas cavalgar a exploração dos sentimentos do momento.
No panorama nacional, o escrutínio do chamado “quarto poder” sobre a atividade do poder político também tem dado mostras de uma seletividade notável. Desde logo, vários jornais divulgaram com grande entusiasmo as ideias do primeiro-ministro, António Costa, sobre a criação de um fundo monetário europeu, sem nenhum ter tido a capacidade e a memória de recordar que elas são exatamente iguais às que constam de uma proposta apresentada em 2015 por Pedro Passos Coelho. Por outro lado, a acusação do governo grego sobre a suposta discriminação do governo português em relação aos refugiados yazidi mereceu apenas curtas notas, bastando-se os media com a lacónica explicação apresentada pelo governo: ora, não seria expectável sabermos com que base o governo grego proferiu tamanha acusação, ou o simples facto de vivermos num cenário de governação socialista e legitimado por uma maioria de esquerda no parlamento permite que os media aceitem com candura as explicações sucintas que lhes são dadas? E que dizer do anúncio do Presidente da República, que num panorama em que, há mais de um ano, os juros da nossa dívida pública sobem consistentemente, com especial incidência nas maturidades mais longas – em dissonância com todos os países da zona euro, cujos spreads se mantêm estáveis –, afirmou que Portugal está a reestruturar a sua dívida? A forma macia e subserviente como alguns media encaram e trabalham certas notícias ajuda a explicar porque cada vez mais cidadãos perdem interesse por aquilo que é publicado, perigosamente optando por ir atrás dos factos e das notícias no seu estado bruto. O facto de o mainstream mediático ser particularmente sensível às causas da esquerda e aos agentes da proliferação do medo tem ainda um efeito perverso, o de engrossar a tal “maioria silenciosa” que muitos políticos à direita exploram, como base eleitoral, para políticas de regresso ao passado, de fechamento das sociedades: perante o medo e a incerteza, as classes médias tendencialmente preferem um mau conservadorismo do que vanguardas de rutura de esquerda.
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