domingo, 30 de setembro de 2018

a transformação

"Durante anos, tinha bastado ser inteligente. Tudo o que isso significava, ao início, era que se era capaz de responder ao tipo de perguntas que os professores faziam. Todo o mundo parecia ser baseado em factos, o que fora um alívio para Greer, que era capaz de apresentar factos com grande facilidade, como um mágico a tirar moedas de trás de qualquer orelha disponível. Os factos apareciam diante de si e depois ela limitava-se a dar-lhes voz, tornando-se assim conhecida como a mais esperta da turma.
Mais tarde, quando já não eram só factos o requerido, tudo se tornou mais difícil para ela. Ter de se expor - as suas opiniões, a sua essência, a substância particular que revolvia dentro de uma pessoa e a tornava quem era - tanto a exauria como assustava (...)".

Meg Wolitzer, A persuasão feminina, Teorema, 2018, p. 16.

domingo, 9 de setembro de 2018

as virtudes de Churchill

Passando em revista a "lista de debacles" que Boris Johnson enuncia sobre Churchill no seu livro "Fator Churchill", da qual constam, entre outros momentos históricos, a crise do trono provocada pelo coração do Rei Eduardo VIII ou o erro de avaliação de Churchill sobre a Índia, é verdadeiramente notável que Churchill tenha sobrevivido a todos estes episódios para vir a ser o PM que, mais tarde, salvou a Europa. Igualmente notável é a descrição de Boris Johnson das virtudes que imputa ao seu (ao nosso?) herói e que lhe terão valido nas dificuldades:

"Que nos diz ela [a tal lista] do caráter de Winston Churchill? Com toda a evidência diz-nos que tinha justamente isso, aquilo a que se chama caráter. Qualquer um desses fiascos, só por si, teria arruinado a carreira de um político normal. Que Churchill possa ter sobrevivido é um tributo à sua capacidade de recuperação, a alguma substância tipo Kevlar com que resguardou o ego e o ânimo. Ajudou-o o facto de ser extrovertido, de conseguir exprimir-se tão naturalmente. Não interiorizou as suas derrotas e, com a exceção de Gallipoli, não roeu as entranhas recriminando-se. Não permitiu que os abundantes e pitorescos desastres alterassem fundamentalmente a maneira como se via. E é um reflexo da preguiça natural dos seres humanos que os outros tendam a julgar-nos sobretudo segundo o juízo que fazemos de nós próprios."

O Fator Churchill. Como um homem fez história, Boris Jonhson, D. Quixote, 2014, p. 235.


"Capacidade de recuperação" - não será mesmo isto que faz de qualquer ser humano um herói?

quarta-feira, 18 de julho de 2018

um certo tipo de discurso

Miguel Tamen: (...) E desconfiar intuitivamente daquelas coisas que são ditas com um tom muito enfático por muitas pessoas. Quando há muitas pessoas a dizerem a mesma coisa, adotam um tom muito característico ...

Ler: Usado, por exemplo, no name dropping? É uma parte desse tom.

Miguel Tamen: Sim, um tom no sentido prosódico do termo. Quase todas as pessoas na televisão, nas arenas políticas, nas conferências profissionais, usam esse tom: o de alguém-que-está-a-ensinar-coisas. É um tom que sugere que elas veem coisas que não são evidentes para mais ninguém e que elas nos vão explicar a todos com-é-que-essas-coisas-são.

Ler: Em grande parte, o sucesso dessas pessoas depende da absoluta evidência e banalidade do que dizem.

Miguem Tamen: Mas o sucesso depende de os outros estarem convencidos de que els sabem mais. Trata-se de pessoas que têm acesso a conhecimentos e a segredos especiais e que se dignam comunicá-los, com o tom um bocadinho impaciente e um bocadinho enfadado de um professor para quem os alunos são todos estúpidos. É o tom habitual dos debates na televisão e das discussões políticas e intelectuais em Portugal. É o tom também de um certo discurso intimidatório relativo à arte e à literatura. É aquilo a que um crítico literário chamava ''demonstrações no sentido militar do termo'".


Revista Ler, Primavera 2018, p. 26.