quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Sequências (2)

















sequências









Eyes Wide Shut, Stanley Kubrik (1990)

Jornal i #33 - Três conquistas para o feminismo numa semana


Ontem, para o jornal i:  

1. A semana passada, esclarecendo atoardas e alguns incautos – sobretudo os que não repararam no desnorte do PS pós seguro –  Maria de Belém anunciou quando anunciará a sua candidatura à Presidência da República. Imediatamente Manuel Alegre versejou que já era tempo de uma mulher na Presidência. Belém deve ir para Belém, não por ser competente mas, simplesmente, por ser Maria. Louvada seja Maria. Será, dois séculos volvidos, a única Maria a representar a República Portuguesa, depois de D. Maria I e D. Maria II.

2. Na mesma semana, os jornais ingleses davam nota de uma  ex-baterista de MIA, Kiran Gandhi, que decidiu libertar-se de (mais) uma manifestação do opressivo patriarca: o tampão. Vai daí a senhora decide percorrer a maratona Londrina  desembaraçada da presença de um absurdo  “chumaço de algodão”. A experiência ficou registada no seu blog, espirituosamente intitulado, “A Modern Period Piece” e numa fotografia visceral final. 


3. A excitação atingiu proporções colossais com o anúncio  da autorização da venda do primeiro viagra feminino nos EUA cuja atuação é, naturalmente, diferente da do viagra masculino. Esse não foi, contudo, um aspeto suficiente para travar a libido feminista.   Quanto a mim, confesso que sinto alguma vergonha alheia e muita curiosidade para saber qual seria a reação de Donald Trump a 2 e 3.

terça-feira, 18 de agosto de 2015

ninguém está a salvo


#32 jornal i: David Foster Wallace chega ao cinema


Hoje, para o jornal i, 

“I think that if there is a sort of sadness for people under 45, that’s something to do with pleasure and achievement and entertainment. Like a sort of emptiness at the heart of what they thought it was going on”. Dou voltas e mais voltas a esta frase de David Foster Wallace, esse perscrutador dos mistérios do humano, que nos é apresentada no filme “The end of the tour” (James Ponsoldt), sobre uma entrevista de cinco dias entre o repórter da revista Rolling Stone, David Lipsky (Jesse Eisenberg) e aquele aclamadíssimo escritor interpretado por Jason Segel.

Foster Wallace já não é dos fãs que o liam ou dos amigos que o conheciam: passou a ser culturalmente de todos, num processo que – é mera suposição, confesso – culminará com um resultado semelhante ao de Hitchcock, que quase fez de todos, quando pronunciam o seu nome, “cinéfilos”, verdadeiros espectadores apaixonados pelo “género”, um mestre do suspense conhecido por todos, mesmo aqueles que nunca ouviram falar de “Rebecca” (1940) ou “Notorious” (1946).

A história que o livro de Lipsky “Although of Course You End Up Becoming Yourself”, publicado em 2010, relata além de verídica é fascinante mas, o filme, parece ficar aquém. Há desde logo o estilo “bromance”, que relata uma viagem de “bonding”, entre dois homens, preenchida por momentos de partilha de M&M’s e o entoar de uma música de Alanis Morissette. Mas o verdadeiro desafio de transformar o livro de Lipsky num filme, abdicando do artifício da palavra escrita, passa não só pela representação da solidão, crua e dura, que fulminou Foster Wallace, como também pela representação de um homem que olhava tudo com olhos pensativos, que vêm para além das coisas e das pessoas e parecem assustar-se. Um homem com qualquer coisa a roê-lo por dentro, o que é um dom e um sofrimento, sem nunca estar contente, sem se entregar, receando tudo aquilo que se passa em volta dele. Há poucos atores capazes de interpretar este “tipo”, com a intensidade e naturalidade apropriadas e não me parece que Marshall, de “How I Met Your Mother”, tenha sido uma escolha avisada.













domingo, 16 de agosto de 2015

perda de contornos

"O facto de as pessoas, mais ainda do que as coisas, perderem os seus contornos e alastrarem, sem forma, é a coisa que mais assustou Lina ao longo da sua vida."

Elena Ferrante, História do Novo Nome, p. 282