terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Jornal i #8 Segurança da liberdade

O meu texto de hoje para o jornal i:

No dia 11 de Setembro de 2001, o mundo perdeu parte da sua liberdade. Ou, melhor, a liberdade foi a grande derrotada do dia. O mesmo voltou a suceder na sequência do ataque em Paris.

Sempre que volta à baila o problema que opõe segurança a liberdade, a grande derrotada é esta última. É evidente que a necessidade de haver um reforço do controlo da circulação de pessoas exteriores ao espaço europeu limitaria a liberdade de circulação. Mas tempos de contaminação quotidiana pelo medo, sendo terreno fértil para seguidores de teses radicais, não me parecem convidativos à reflexão séria sobre estes temas.

Isto vem a propósito da reunião ocorrida em Bruxelas, com os ministros competentes dos Estados-membros, com vista a serem discutidas medidas contra o terrorismo. Não existe uma resposta fácil, mas há um debate que não deve deixar de ser realizado que é o da “segurança da liberdade”. Este debate é essencial para o modo de vida ocidental com reflexos, por exemplo, na privacidade e identidade de cada um e no acesso e utilização de informação pessoal por parte de diversas instituições. A solução não está entre optar por um em detrimento do outro, mas sim em encontrar um equilíbrio justo entre ambos, equilíbrio esse que garanta a segurança necessária para a vida colectiva com danos mínimos ao nível da protecção das liberdades individuais.

domingo, 1 de fevereiro de 2015

tempos de espera



La femme d'à côté, F. Truffaut (1981)

tédio

"(...) pelo menos olhando para trás, a pergunta realmente interessante é por que razão o tédio demonstra ser um impedimento tão poderoso à atenção. Por que razão sentimos aversão pelo aborrecido. Se calhar, é porque o tédio é intrinsecamente doloroso; se calhar, é daí que vêm expressões como "mortalmente aborrecido" ou "excruciantemente aborrecido". Mas é possível que haja mais qualquer coisa. Se calhar, o tédio está associado à dor psíquica porque uma coisa que é aborrecida ou opaca não consegue fornecer estímulo suficiente para distrair as pessoas de outro tipo de dor mais profunda, que está lá sempre, ainda que a um nível ambiental baixo, e que a maioria de nós dedica quase todo o tempo e energia a tentar não sentir, ou pelo menos a não sentir diretamente ou com toda a atenção. (...) Não consigo imaginar que haja alguém que acredite realmente que a denominada "sociedade de informação" tenha a ver apenas com a informação. Toda a gente sabe que tem a ver com outra coisa qualquer, mais profunda."

David Foster Wallace, O Rei Pálido, p. 101.