quarta-feira, 16 de março de 2016

Jornal i # 56 - Do poliamor ao excesso de regulamentação de leguminosas

Ontem, para o i,

Nos seus versos, Camões deixou claro que “amor é fogo que arde sem se ver”. Entretanto, o tempo passou, a vida aconteceu, e o fenómeno (sinceramente, não sei qual o melhor adjetivo) dos “amores plurais” ou do poliamor terá obrigado o poeta luso a usar o plural ou a revisitar a sua perceção. Será?Eu explico: leio na “Visão” que “o interesse romântico e/ou sexual por mais de uma pessoa é um dilema que a monogamia ainda não resolveu”. A minha pergunta imediata é: mas devia? Só mesmo um Camões da pós-modernidade poderá responder a esta inquietação.

E por falar em poesia, aposto que o leitor não sabia que a nossa burocrata e cinzentona Bruxelas, nos idos anos 80, inspirada pela chaminha burocrática e estatista, no Regulamento 1591/87, conseguiu a proeza de dedicar 5371 palavras a couves-repolho, couves-de-bruxelas, aipos e espinafres. Perdão, o “Daily Express” especifica: 5 mil palavras dedicadas a couves-repolho e as demais 371 às restantes leguminosas mencionadas - uma façanha inédita quando comparada com textos tão profundos como o discurso de Gettysburg, de Abraham Lincoln, com 271 palavras, ou mesmo os dez mandamentos, com apenas 297. Repolhos e aipos exigem mais prosa, pois claro. Mas não é só a extensão da prosa: há que concretizar, especificar, complicar. Veja-se o caso dos pepinos, regulados no Regulamento n.o 888/97 da Comissão de 16 de maio de 1997, que podem ser “ligeiramente recurvados” (mas apenas “ligeiramente”) e ter uma altura máxima de arco de 20 mm por 10 cm; ou a noção, delimitada de forma sofisticada e colossal, de batata nova ou primor, recentemente transposta para o decreto-lei n.o 14/2016. Já agora, a pergunta: acha que os agricultores são atordoados pelo excesso de regulamentação e de exigências europeias?

quarta-feira, 2 de março de 2016

Jornal i # 55 - Três descobertas científicas da esquerda

Ontem, para o i,

Na última semana descobrimos que o neoliberalismo engorda e que as desigualdades sociais provocam fraturas na anca. Estas duas bestiais descobertas, muitíssimo científicas, permitem-nos, por exemplo, medir com um grau de exatidão elevado, preciso, o nível de neoliberalismo no sangue dos nossos governantes. Por exemplo: comparando a elegância de Passos Coelho com as gordurazitas de António Costa, ficamos certos que o último, digamos, mais anafadinho, é, a olhos vistos, o mais neoliberal. Mas não só: elas atestam também a ineficácia do nosso Estado social, cada vez mais amplo, mais prestacional, mas incapaz de cobrir a dorzita na anca.

E por falar em prestações, o ministro Vieira da Silva, criatura normalmente sóbria e sombria, adiantou no parlamento mais uma descoberta científica, de forma colossal e triunfante, sobre a bancada do PSD: “Os senhores perderam as eleições!” Assim se vê a qualidade da “metodologia” científica da geringonça.

Mas a grande descoberta cientifica da semana veio do Bloco que, para comemorar a vitória de mais uma causa fraturante, divulgou um cartaz onde se lê “Jesus também tinha dois pais”. Não bastou aprovar a legislação em causa nos órgãos democráticos, muito menos comemorar com uma garrafa de espumante e respetivo caviar: era preciso chocar. Pois é, mas se eu fosse um dos beneficiados da conquista celebrada não iria gostar de ser objeto de comparação com uma figura que foi perseguida, capturada, torturada e assassinada por ter ideias menos “próprias” para a altura. Aliás, Miguel Vale de Almeida manifestou reprovação. Talvez fosse mais apropriado para o efeito pretendido usar o lema “a geringonça também tem dois pais”. E, já agora, e porque falamos de igualdade, e a mãe?