quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Jornal i #83 - Vai ter golpe?

Esta semana, para o i,

Dias após Donald Trump ter sofrido um significativo revés, com a divulgação de uma conversa mantida com um dos membros do clã Bush onde a marca machista do candidato republicano nos foi oferecida sem pudor nem filtro, a campanha para as eleições norte-americanas continua a dar-nos a oportunidade de olhar pelo buraco da fechadura para espreitar os pormenores mais sórdidos daquilo que é a dimensão comportamental dos candidatos. Esta semana é a candidata democrata que está na berlinda, após o anúncio de que o FBI terá decidido reabrir uma investigação, supostamente encerrada em julho deste ano, ao uso indevido de emails por parte de Hillary. Há que ter presente que aquilo que James Comey, diretor do FBI, decidiu, é completamente inédito: a dez dias das eleições, reabriu uma investigação a uma candidata nomeada pelo Partido Democrata à presidência dos Estados Unidos da América (EUA). O caso, recorde-se, gira em torno de um endereço de email de Clinton que, enquanto secretária de Estado, utilizou um servidor privado instalado em sua casa em vez de um endereço do governo, expondo à pirataria a confidencialidade de assuntos de Estado e de segredos da diplomacia americana. 

Não é fácil prever qual o impacto que esta decisão pode ter no desfecho eleitoral. Comey já deu nota de que o calendário eleitoral não vai marcar o ritmo da investigação e que não tem a certeza de quanto tempo irá demorar a revisão adicional do caso, indicando que não haverá uma clarificação antes do momento da eleição. Trump e os seus apoiantes têm aproveitado a ocasião para enfatizar aquela que é a sua principal mensagem, que a sua batalha é contra os poderosos e corruptos. O debate eleitoral há muito que deixou de ser ideológico para se tornar identitário, e a campanha republicana joga tudo na tentativa de criar em redor de Trump uma coligação dos descamisados da América, dos defensores do orgulho americano contra o mal e os poderosos, corporizados em Clinton e nas diversas administrações democratas, de Bill Clinton e Obama, de que ela será a herdeira. As sondagens continuam a dar ligeira vantagem à candidata democrata e o esforço republicano e a dramatização do seu discurso poderão não ser suficientes para evitar a eleição da primeira mulher presidente dos EUA. É sensato, contudo, não fazer uma analogia com aquilo a que assistimos recentemente no Brasil, onde a eleição democrática da presidenta Dilma, debilitada por um processo judicial, terminou na sua destituição. Muitos apontam esse risco, de Hillary Clinton iniciar o seu mandato a braços com um processo que, pela sua densidade, a fragilizará politicamente, abrindo o flanco a uma instrumentalização política do fenómeno judiciário para obter a sua destituição. Que isso ocorra naquela que, há décadas, é considerada a democracia mais forte do planeta, é paradigmático da crise institucional que perpassa pela generalidade das suas nações.

P.

P. era um homem indestrutível. Pelo menos parecia, fazendo de tudo para nos fazer senti-lo desse jeito. Alto, fanfarrão, largo de costas, com uma barriga farta, olhos esbugalhados, toda uma aparência larger than life construída ao som de amplas gargalhadas e de movimentos ligeiramente bruscos, que o glorificavam e lhe atribuíam uma magnitude contagiante. Este foi um homem abençoado pela privação de qualquer espécie de angustia existencial, impotência, imobilismo - tudo aquilo que nos afetam a nós, o comum dos mortais. Essa sua característica era o que lhe permitia desempenhar uma função heróica na vida em sociedade, um colaborador da História e não um mero espectador. P. fazia parte daquele conjunto de pessoas a quem a Natureza (ou Deus, eu sei lá) não tinha equipado com a capacidade de estar quieto mais de cinco segundos, sobretudo quando não era o centro das atenções. Convencido ser senhor de verdades totais, que proclamava com uma voz sonora, P.  estava acostumado a ser escutado e a causar sensação nas salas. Quando não preenchia essa condição natural fumava, bebia, soltava mais uma gargalhada, agitava-se na cadeira e abanava a ponta do pé, enquanto procurava enquadrar socialmente a próxima toada.

A mim, encantava-me ouvi-lo: ficava por ali, numa espécie de pasmo a sentir toda aquela vibração bestial. Fazia-me lembrar outra pessoa com quem em tempos convivi e que, por brevíssimos momentos, muito me encantou com tanta truculência social - até descobrir que tudo aquilo era representação teatral.

terça-feira, 1 de novembro de 2016

o verdadeiro Halloween







Ontem, pela primeira vez na minha vida, festejei o Halloween - o verdadeiro. Com um casal de amigos que tem dois filhos lá fomos, rua acima, rua abaixo, com os vizinhos, fazer o trick or treat. A América gasta 10 biliões de euros anualmente com o Halloween, pelas imagens percebe-se bem porquê. As fotografias foram tiradas em Georgetown, onde me deslumbrei com as casas e com  a simpatia, elegância, distinção, dos seus proprietários. A real treat, I say.

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Jornal i #82 - A Rapariga no Comboio

A semana passada, para o i,

Recordo-me apenas de dois filmes sobre as histórias de três mulheres que, de uma forma ou de outra, estão relacionadas entre si: “As Horas”, de Stephen Daldry, e “Interiores”, de Woody Allen.

No primeiro, Julianne Moore, Nicole Kidman e Meryl Streep; no filme de Woody Allen, Diane Keaton, Mary Beth Hurt, Kristin Griffith e Geraldine Page. É esse o ponto de partida de “A Rapariga no Comboio” (Tate Taylor, 2016), que nos apresenta três atrizes de uma geração nova da qual se destaca Emily Blunt, num desempenho estrondoso que deixa na sombra Rebecca Ferguson e Haley Bennett. 

A rapariga no comboio é Rachel (Emily Blunt), cujo estado físico e psicológico nos leva constantemente a desconfiar da sua culpa em relação a um desaparecimento que será o tema central do filme. Divorciada, com problemas de álcool e bastante instável, Blunt passa os seus dias no comboio entre Westchester e Nova Iorque a fantasiar obsessivamente com um casal (Luke Evans e Haley Bennett) que aparenta viver a vida perfeita que lhe escapou. Não é por acaso que Evans e Bennett vivem na mesma rua onde Rachel em tempos viveu com o seu ex-marido, a quem ocasionalmente persegue. Ou será? 

De forma algo precipitada, sem grandes cerimónias, Rachel acorda sem memória e ensanguentada, depois de mais uma noite de exageros que coincide com a noite do desaparecimento de Bennett. É então que tem início um mistério mais confuso do que intrigante. Numa tentativa bastante infeliz de misturar Alfred Hitchcock com Agatha Christie, a comparação com “Em Parte Incerta” (David Fincher, 2014) também é por demais óbvia: ambos thrillers, baseados em bestsellers, com títulos semelhantes, lançados no início de outubro e com protagonistas no feminino. Ambos tratam o tema do casamento moderno, abusos, traições e violência. “A Rapariga no Comboio” tem, felizmente, Emily Blunt, cuja representação de mulher bêbeda, perdida, inconsolável, que precisa urgentemente de ajuda nos assusta e nos faz duvidar dela própria. Rachel está psicologicamente descompensada, mas será perigosa? O rosto de Blunt vai assumindo modos e estados que não imaginamos possíveis à medida que Rachel sofre e se transfigura numa volatilidade frágil. Enfim, provavelmente, a representação de Blunt é demasiado boa para um thriller deste tipo.