quarta-feira, 19 de abril de 2017

Jornal i# 105 - A oportunidade perdida do governo português

Ontem, para o i,

Durante a campanha para as legislativas, apontando várias vezes os desequilíbrios e assimetrias de poder na Europa, exaltando o imperativo de refundar o projeto europeu, o PS propôs-se defender os interesses portugueses com uma voz mais grossa, em Bruxelas, prometendo também, caso vencesse as eleições, uma menor submissão portuguesa na Europa.

Também o programa socialista, em particular o Capítulo III, prometia “novos impulsos”, “reequilíbrios económicos e sociais”, correção de “assimetrias”, etc. E eis que, aquela que era apenas uma promessa eleitoral de uma esquerda cheia de brio pela pátria, finalmente se materializa: diante de câmaras e flashs, o governo fez-se representar por um secretário de Estado que, a transbordar de testosterona política, enche o peito de furor patriótico para manifestar a tal voz grossa portuguesa ao ministro das finanças holandês - “aquele-cujo-nome-não-se-pronuncia” - na sequência de uma polémica já muito glosada.

Mas a oportunidade socialista de liderar os destinos europeus, refundar as políticas financeiras do Eurogrupo e pôr na ordem os países do Norte, não se esgotou neste momento televisivo de glamour para consumo interno: o ministro das Finanças português era então sondado para substituir aquele que tem sido tratado, de forma bastante grosseira, como o Lord Voldemort das finanças europeias.

As condições pareciam estar a ser criadas para que Centeno fizesse valer a posição socialista, para partilhar a fórmula mágica que tem vindo a implementar em Portugal, para reverter o “fanatismo ideológico” e austeritário e defender, na Europa, uma política menos penalizadora da economia e do tecido social. Enfim, para liderar o programa de “reformas estruturais” diferentes que se propôs aquando da campanha.

É por isso surpreendente que o PS não queira aproveitar esta oportunidade argumentando que a liderança do Eurogrupo não está nas prioridades do governo. Pelo contrário, dessa cartilha de prioridades parece estar o apoio ao ministro das Finanças espanhol, Luís de Guindos que, em 2013, em entrevista ao “Financial Times” enaltecia a qualidade das políticas implementadas na Zona Euro. Este apoio a Guindos, um defensor da austeridade nos anos de crise e das políticas adotadas pela Europa, o ministro que implementou cortes substanciais na despesa espanhola para reduzir o défice, amplamente criticado pela esquerda espanhola, indicia que o PS ultrapassou o espasmo patriótico e ocasional de outrora, deixando escapar a oportunidade de demonstrar e de dinamizar, ao nível europeu, a ‘alternativa’ à austeridade que tem vindo a implementar por cá.

o momento alto da minha semana






Veep, 6ª temporada, episódio 1

terça-feira, 18 de abril de 2017

Jornal i# 104 - A Plea for Caution in Russia

A semana passada, para o i,

“Devemos ficar longe da Síria”, escreveu Trump no Twitter em 2013, como reação à decisão do presidente Obama de apoiar diretamente os rebeldes sírios na sequência de um ataque com armas químicas por parte do governo do país.

Nos anos seguintes, e mesmo durante a sua campanha presidencial, Trump foi sempre claro e assertivo na defesa de uma linha não intervencionista face ao conflito da Síria. 

Sobre a China, durante vários anos, o atual presidente americano desenvolveu uma retórica de denúncia do que ele considera ser a posição agressiva da potência asiática no comércio internacional, levantando suspeitas – factualmente exageradas – sobre a forma como supostamente o Estado chinês promove a manipulação da moeda e um significativo défice comercial com os EUA que ele quererá, supostamente, ver ultrapassado.

Mas a pressão sobre a China não se esgota nas questões comerciais. Dias antes do encontro com o seu homólogo chinês, Xi Jinping, Trump foi claro: “Se a China não resolver os problemas provocados pela Coreia do Norte, então os EUA irão resolvê-los sozinhos.”

Nenhuma destas declarações afastou Xi Jinping, que marcou presença, não em Washington DC, mas em Mar-a-Lago, o clube privado, pertença da família Trump, situado em Palm Beach, na Florida, nem inibiu uma intervenção norte-americana na Síria, com uma série de bombardeamentos que surpreenderam o mundo – incluindo a Rússia, que nos últimos anos, perante as indecisões de Obama, foi assumindo um papel hegemónico na região, não apenas na Síria, mas também, recentemente, na Líbia. Na verdade, existem rumores de que a Rússia poderá estar a apoiar o denominado governo da Câmara de Representantes da Líbia, liderado por Khalifa Haftar, que domina a zona leste do país e que nas últimas semanas foi bem-sucedido na tomada de Ras Lanuf, Sidra e Ben Jawad, áreas ricas em petróleo.

Os ataques na Líbia surgem numa altura em que Putin enfrenta uma elevada contestação interna. Numa altura em que a Rússia vive o terceiro ano de uma grave recessão económica, os protestos agudizam-se. No passado dia 26 de março, a polícia russa deteve mais de 700 manifestantes que participavam num protesto contra a corrupção no país e que juntou milhares de pessoas no centro de Moscovo. Apesar da tentativa de minimizar o impacto mediático das manifestações, elas têm tido significativa repercussão, em especial porque um dos principais alvos será o primeiro-ministro, Medvedev, acusado de deter uma significativa fortuna secreta. 

A dúvida que paira hoje é se as decisões de Trump são motivadas por um espírito incoerente e impulsivo ou se, pelo contrário, a sua imprevisibilidade resulta de uma forte capacidade de ler a realidade e de uma significativa adesão à Realpolitik. Certo é que, na mesma semana, e ignorando o lado folclórico das declarações inflamadas com que inunda o Twitter, Trump beneficiou dos sorrisos do presidente da China e mostrou ao mundo que não se deixa limitar pelas aspirações russas que, perante a evidência dos ataques americanos, ficaram sem qualquer reação. Ficamos a saber, em qualquer caso, que longe vão os tempos em que a política americana em relação à Síria era definida por Vladimir Putin, como ocorreu em 11 de setembro de 2013, quando este escreveu a famosa crónica “A Plea for Caution From Russia”, explicando com pormenor porque entendia não ser do interesse americano uma intervenção na Síria.

Jornal i# 103 - A institucionalização da felicidade

Há duas semanas, para o i,

Há duas semanas, o governo criou o site da felicidade a propósito da comemoração do Dia Internacional da Felicidade. E eu que julgava que se há coisa que não se “internacionaliza” por decreto, que não se comemora de forma circunscrita no tempo e no espaço, é a felicidade. 

Atenção, caro leitor: não se trata do site felizes.pt, uma página, que não merece o patrocínio do Estado, usada para combinar encontros – e cito – “com maturidade”. De facto, a iniciativa do nosso governo pretendeu assinalar aquele dia e permitir que os portugueses partilhassem com o mundo as suas “experiências de bem--estar” e “celebrar a felicidade”.

Naquela data, decretada pela ONU na sequência de proposta do próspero reino do Butão, a submissa pátria lusa esqueceu todos os infortúnios e problemas do dia-a- -dia; naquela data, a tristeza era uma anormalidade e o fracasso, por 24 horas, seria erradicado do nosso país com o aval socialista: os portugueses tinham o dever de ser felizes! Bastava um vídeo ou uma foto que o governo se encarregava de promover e propagandear a felicidade dos súbditos do reinado da geringonça. A nossa esquerda parece, apesar de tudo, ser mais comedida do que, por exemplo, a esquerda venezuelana que, em 2013, criou o Ministério da Suprema Felicidade Social do Povo Venezuelano para garantir a felicidade de todos os venezuelanos através de uma fórmula aplicada ao coletivo. Conhecemos bem o resultado dessa formula “mágica”.
Não sendo possível comparar a situação política, económica e social dos dois países, certo é que a partilha de valores e de uma ideologia à esquerda se reflete neste tipo de iniciativas governamentais que, se por um lado distraem o povo, falsificam e maquilham a realidade nacional dos dois países, por outro comungam do mesmo fim: a intenção de oficializar ou institucionalizar aquilo que é vivido de uma forma individual por cada um de nós, à medida que vamos construindo a nossa história, sem interferência e sem publicidade do Estado. A felicidade, se existir, não é vivida em conjunto nem precisa de intermediações. Sobretudo quando estas são artificiais. 

Mas, por cá, o artifício não durou muito. É que em dia de felicidade, pouco depois de anunciada esta bela iniciativa governamental, é publicado, também pela ONU, o relatório mundial sobre a felicidade em 2017. Ao que parece, por muito que o Estado ambicione intermediar a felicidade dos seus, não tem sido bem- -sucedido no caso português: dos 155 países analisados, Portugal ocupa o 89.o lugar; com níveis de felicidade acima dos nossos encontram-se, por exemplo, a Venezuela (fruto do persistente trabalho do ministro da Suprema Felicidade em tempos tão convulsivos), o Paquistão, o Kosovo, o Turquemenistão, o Cazaquistão, entre outros; Portugal tem vindo a decrescer neste índice da felicidade e, se em 2013 ocupávamos o 73.o lugar, agora estamos no 89.o; da Europa, Portugal é o país com os índices de felicidades mais baixos e um dos países que mais antidepressivos consome.

sábado, 25 de março de 2017

Jornal i #102 - Neruda: a imoralidade de um comunista burguês

Esta semana para o i,

Está agora nos cinemas portugueses “Neruda”, um filme de Pablo Larraín, o mesmo realizador de “Jackie”. Além de ser um bom e criativo biopic sobre o poeta, senador e comunista chileno, “Neruda” é também uma violenta bofetada no comunismo e, em particular, na tendência para a beatificação dos heróis da causa revolucionária. Basta pensa em Fidel Castro e Che Guevara.

Só que, se, por um lado, “Neruda” não é um filme que enalteça a luta de um herói santificado da causa comunista, por outro lado, também não é um filme sobre a imoralidade e boémia da vida de um poeta. Neruda é, sobretudo, um filme sobre a integridade de um comunista. É que Larraín não retrata apenas cenas da vida boémia de um artista, vaidoso e frívolo, que bebe champanhe e vive uma vida de deboche, de orgia em orgia, ao lado da sua mulher aristocrata, Delia (Mercedes Morán). Ainda assim, esta descrição do artista esquerdista é fundamental na personagem que Larraín nos apresenta: é nos intervalos do deboche que, das trincheiras da sua superioridade intelectual (e moral), Neruda lidera espiritualmente a revolução e os trabalhadores, encantando e inspirando com declamações de poesia sobre o sofrimento do povo, mobilizando as massas através da função simbólica da sua escrita e da sua existência que, naturalmente, se situa num pedestal, acima do comum dos mortais. Como se uma revolução se alimentasse de belas palavras; como se o combate à pobreza e a luta pela justiça social se construíssem sobre lirismos.

Pablo Larraín filma sobretudo a imoralidade e a hipocrisia do comunista burguês que vive segundo o lema “olha para o que eu digo e não olhes para o que eu faço” e apresenta-nos um Neruda senatorial, com todo o estatuto de excecionalidade e sobranceria em relação aos seus camaradas de luta que a palavra “senador” concede, mas que dificilmente se compreende à luz dos axiomas comunistas; um senador cuja consciência convive com a sua altivez de forma tranquila, acomodado e resignado à sua condição moral e artística, superior, mesmo quando confrontado por Silvia, militante desde os 14 anos que, depois de ultrapassar as consternações naturais de quem está na presença de um ídolo, de um deus, acusa Neruda de ser um comunista especial e pergunta: “Quando chegar o comunismo, todos serão iguais a ele ou a mim?” Sem pejo, ligeiramente indignado com a ousadia da camarada, o senador responde que todos serão iguais a si; um senador que, num café parisiense, de peito túrgido, bebendo uma garrafa de bom vinho e rodeado de jornalistas que o questionam com a mesma curiosidade e fascínio que uma fã manifesta junto de uma estrela pop, fala dos homens do seu país que estão presos, que são torturados e exilados. Neruda foi apenas um deles, é certo. Ainda assim, um senador, um poeta, um artista e, naturalmente, um privilegiado. Um hipócrita, portanto.

domingo, 19 de março de 2017

Jornal i #101 - O manifesto de Zuckerberg sobre o futuro da humanidade: um Big Brother de boas intenções

Esta semana para o i,

O número terá já ultrapassado os mil milhões em termos mundiais e, em Portugal, uns 4,7 milhões. Refiro-me, naturalmente, aos utilizadores do Facebook (FB). Apesar deste impressionante sucesso, a invenção de Mark Zuckerberg tem muitos fregueses descontentes que sucessivamente lhe apontam problemas e críticas: uns dizem que explora o narciso em cada um de nós, outros que cria um “enxame”, um conjunto de pessoas que, através da facilidade da comunicação digital, constitui uma praga que opina constantemente e insulta sem qualquer espécie de travão moral para consumo universal. Há ainda quem diga que as redes sociais, e o Facebook em particular, extinguiram o lugar dos agentes mediadores, essenciais numa sociedade democrática, madura e civilizada, e quem discorde da manipulação e censura das opiniões e notícias nos trends e feeds que o algoritmo constrói. Por fim, há também o problema da devassa, da privacidade e da disponibilização das nossas informações pessoais às autoridades estatais.Talvez por esta acumulação de críticas, o jornal inglês “The Guardian” declarou 2016 como o ano em que o FB se tornou um bad guy. 

Mas a esta nobre cartilha de críticas acrescenta-se agora um dado novo: o manifesto publicado por Mark Zuckerberg, em 16 de fevereiro deste ano, na sua página pessoal. Em 5700 palavras, o CEO do FB sintetiza o futuro idílico de uma comunidade mundial transformada pelas redes sociais. Alterações climáticas, terrorismo, guerras, pobreza, desigualdades sociais: Zuckerberg tem um plano que expôs com uma admirável capacidade de síntese (quase 6 mil palavras!), para construir aquele que, na sua perspetiva, parece ser o futuro adequado para todos nós. Naturalmente, este curto texto tem um significado imediato: o reconhecimento de que aquilo que era, até então, uma infraestrutura de comunicação, de abertura e conectividade das pessoas passa a ser, assumidamente, um veículo de transformação e modificação da vida social, tal como a conhecemos, para a criação de uma nova “infraestrutura social” para a “comunidade global”.

Ou seja, Zuckerberg propõe-se mudar o mundo usando o FB. Faz, então, parte do passado a ideia de que a tecnologia nos controla: é Zuckerberg que se assume como o protagonista, o grande líder, desse domínio. Por outro lado, a mensagem de um bilionário que se arroga a pretensão de falar em nome de todos, propondo uma reconstrução da humanidade baseada na sua própria visão, no seu quadro de valores, na sua axiologia, sobre como deve ser o futuro, mais não é do que uma aberração política e democrática disfarçada de declaração de responsabilidade social ou de cartilha de boas intenções. 

Qualquer comparação deste manifesto com o discurso de uma miss Universo é profundamente injusta e, sobretudo, ingénua, pelo que me parece que a mensagem do CEO do Facebook é para levar a sério, com algum espanto e preocupação.