domingo, 10 de junho de 2018

qualquer coisa amarga como fim de doçura

"- Ana... Eu vou-me embora, amanhã. Tenho que ir, bem sabes. Adeus, Ana. - Dum fôlego disse tudo aquilo; e intimamente felicitou o seu arrojo de cobarde. 
- Vai-se embora? - Era como se ela achasse natural, como se fosse muito natural, já esperada, a resolução duma partida. Deitada na cama, deixara de bamboar os pés descalços, de fazer malabarismos com as chinelas de verniz; abria-se um vácuo, uma profundidade, dentro de si; qualquer coisa que voava, que fugia; qualquer coisa amarga como fim de doçura; qualquer coisa como um rugir de multidão desvairada dentro duma cabeça quieta, erguida, atenta."

Agustina Bessa-Luís, Deuses de Barro, p. 104

domingo, 27 de maio de 2018

Maio de 68


"Não por acaso se associa quase sempre um romantismo juvenil ao Maio de 68. E, tudo bem visto e ponderado, foi precisamente esta a herança que ficou e perdurou, exacerbada pelo aggiornamento pós-modernista, que não passa de um hiper-romantismo que entronizou como valor supremo os direitos da soberania do “Eu”: a ditadura do subjectivismo radical; o sujeito como critério de tudo, da verdade e da mentira, do belo e do feio, do bem e do mal. Maio de 68 não tinha uma agenda política definida e coerente. Mas toda a gente, ou muita gente, tinha uma agenda pessoal pressurosa: libertar o “Eu” das regras e convenções que o silenciavam e que, silenciando, matavam. O nosso “Eu”, reduzido a um sussurro clandestino, ora lírico, ora gemente, precisava de ar para respirar e gritar alto as suas dores, e as suas exigências. (...)".

"Estivemos lá, mas esse é um mundo que está a desaparecer à nossa frente", Maria de Fátima Bonifácio, aqui.

lenda de infantilidade

- Não sabes do teu irmão? Que é dele? - Falou com a boca cheia, a disfarçar a insistência; estava coradinha e bonita.
- Não querem lá ver, está tola?! - Alarmou-se, a Maria José. O irmão! O seu irmão! Nutria por ele um complexo sentimento; era carinho, maternal cuidado; era um tanto incestuoso ciúme; era sobretudo desejo de domínio. O seu irmão, querido, aborrecido irmão! E tratava-o como a criança impertinente, preocupava-se em não deixar esmorecer essa lenda de infantilidade, exibia os seus deveres de irmã mais velha (...).

Agustina Bessa-Luís, Deuses de barro, p. 46.

domingo, 6 de maio de 2018

Com a Internet (...)

temos realmente a ilusão de sermos pessoas únicas e de sermos capazes de gerir a superabundância de pesquisa do sentido da vida."

Zygmunt Bauman e Thomas Leoncini, Nados Líquidos. Transformações do terceiro milénio, p. 59


sábado, 28 de abril de 2018

alegrias da minha vida



conseguir trazer o Max Schrems a Portugal e lançar, em coordenação com um ilustríssimo académico português, uma revista sobre proteção de dados pessoais.