sábado, 21 de janeiro de 2017

certain women

Lucy, a personagem principal do livro do Roth, Quando ela era boa, não é muito distinta do protótipo de personagem feminina adotado por Ferrante. Além das semelhanças no estilo dos dois escritores - ambos procuram dar voz a partes do "eu" abafadas - as personagens femininas de Ferrante, são jovens e fortes, mas desprovidas de qualquer garotice e, por isso, sempre dispostas a arregaçar as mãos para o trabalho duro, que lhes permite aceder a uma certa nobreza e dignidade; são, aliás, mulheres de princípios. 

Além disso, experimentam uma dor quase insuportável que, por acaso, faz parte da vida e sabem como ninguém o que significa o sacrifício e a luta. Apesar de tudo isto, são mulheres com muita sorte porque o seu Autor as faz imunes a sentimentos como a tristeza ou a melancolia, fraquezas demasiado mundanas e mesquinhas.




terça-feira, 10 de janeiro de 2017

é sempre assim

"Oh, Lucy", disse-lhe a mãe, as pestanas molhadas contra a sua cara, "sê feliz. Podes ser, desde que tentes. Foste tão feliz em criança ...

Quando ela era boa, Philip Roth, 2016, Publicações D. Quixote

domingo, 8 de janeiro de 2017

todos os homens são maus. Exceto Alain Delon


Le Cercle Rouge (1970), Jean-Pierre Melville

o que ainda temos

Quando vi o último filme de Mia Hansen-Løve tive a sensação de que a personagem de Huppert inicia uma fase nova na sua vida (afinal é isso o que está por vir) que começa com a morte da Mãe, com o divórcio, com o fim da publicação dos seus livros que anuncia a sua reforma, com o nascimento de um neto e com uma nova relação com um antigo aluno. Há dois factores que lhe permitem construir (e aproveitar) o que está por vir, essa nova fase marcada por uma libertação definitiva, por um corte com o passado: a natureza irreversível de todos aquelas marcos ou pontos de viragem da vida de Huppert (a morte da mãe, a aproximação da reforma e do fim de uma carreira, o nascimento de uma criança) e o caráter ou maneira de ser da personagem marcado por um certo conformismo ou resignação.

O problema com que me tenho deparado, sobretudo na vida de algumas pessoas que me são próximas é, em primeiro lugar, a dificuldade em lidar com o sofrimento, com o vazio que essa libertação provoca e, muitas vezes, com a trágica ausência de um corte radical, decisivo e final. É, talvez, um problema meu e dos que me rodeiam; um problema do nosso caráter: de rejeição do que esta por vir. Não por teimosia mas por esperança em conseguir manter o que temos no presente ou por força de uma enorme vontade em preservar os cadinhos de passado no presente. É uma espécie de inconformismo que nos leva a lutar pela vida, pelas relações amorosas e familiares, por uma vida profissional melhor, procurando, ao mesmo tempo, evitar mudanças no passado, prolongar os bocadinhos de passado no presente ou desfrutar do lado bom do presente. O que está por vir não nos interessa enquanto nos agarramos, com unhas e dentes, àquilo que (ainda) temos.