quinta-feira, 20 de abril de 2017

todas as primeiras mulheres são loucas

- Há uma coisa que não consigo entender - disse-lhe uma vez, nos primeiros tempos do nosso próprio casamento. Porque foi que casaste com a Carol, afinal?
- Porque era o que se fazia - respondeu ele
O problema era que - ou, pelo menos, seria esse o problema que Joe determinaria - Carol era louca. Passível de ser internada num manicómio e tudo, uma lunática a sério. Pode dizer-se isto acerca da primeira mulher de qualquer homem e os outros presentes acenarão vigorosamente com a cabeça; compreendem perfeitamente o que está a ser dito. Todas as primeiras mulheres são loucas - a ponto de serem violentas e de revirarem os olhos. Contorcem-se, gemem, desatam a arder e desfazem-se, decompõem-se diante dos nossos próprios olhos. 

A Mulher, Meg Wolitzer, p. 22.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Jornal i# 105 - A oportunidade perdida do governo português

Ontem, para o i,

Durante a campanha para as legislativas, apontando várias vezes os desequilíbrios e assimetrias de poder na Europa, exaltando o imperativo de refundar o projeto europeu, o PS propôs-se defender os interesses portugueses com uma voz mais grossa, em Bruxelas, prometendo também, caso vencesse as eleições, uma menor submissão portuguesa na Europa.

Também o programa socialista, em particular o Capítulo III, prometia “novos impulsos”, “reequilíbrios económicos e sociais”, correção de “assimetrias”, etc. E eis que, aquela que era apenas uma promessa eleitoral de uma esquerda cheia de brio pela pátria, finalmente se materializa: diante de câmaras e flashs, o governo fez-se representar por um secretário de Estado que, a transbordar de testosterona política, enche o peito de furor patriótico para manifestar a tal voz grossa portuguesa ao ministro das finanças holandês - “aquele-cujo-nome-não-se-pronuncia” - na sequência de uma polémica já muito glosada.

Mas a oportunidade socialista de liderar os destinos europeus, refundar as políticas financeiras do Eurogrupo e pôr na ordem os países do Norte, não se esgotou neste momento televisivo de glamour para consumo interno: o ministro das Finanças português era então sondado para substituir aquele que tem sido tratado, de forma bastante grosseira, como o Lord Voldemort das finanças europeias.

As condições pareciam estar a ser criadas para que Centeno fizesse valer a posição socialista, para partilhar a fórmula mágica que tem vindo a implementar em Portugal, para reverter o “fanatismo ideológico” e austeritário e defender, na Europa, uma política menos penalizadora da economia e do tecido social. Enfim, para liderar o programa de “reformas estruturais” diferentes que se propôs aquando da campanha.

É por isso surpreendente que o PS não queira aproveitar esta oportunidade argumentando que a liderança do Eurogrupo não está nas prioridades do governo. Pelo contrário, dessa cartilha de prioridades parece estar o apoio ao ministro das Finanças espanhol, Luís de Guindos que, em 2013, em entrevista ao “Financial Times” enaltecia a qualidade das políticas implementadas na Zona Euro. Este apoio a Guindos, um defensor da austeridade nos anos de crise e das políticas adotadas pela Europa, o ministro que implementou cortes substanciais na despesa espanhola para reduzir o défice, amplamente criticado pela esquerda espanhola, indicia que o PS ultrapassou o espasmo patriótico e ocasional de outrora, deixando escapar a oportunidade de demonstrar e de dinamizar, ao nível europeu, a ‘alternativa’ à austeridade que tem vindo a implementar por cá.

o momento alto da minha semana






Veep, 6ª temporada, episódio 1

terça-feira, 18 de abril de 2017

Jornal i# 104 - A Plea for Caution in Russia

A semana passada, para o i,

“Devemos ficar longe da Síria”, escreveu Trump no Twitter em 2013, como reação à decisão do presidente Obama de apoiar diretamente os rebeldes sírios na sequência de um ataque com armas químicas por parte do governo do país.

Nos anos seguintes, e mesmo durante a sua campanha presidencial, Trump foi sempre claro e assertivo na defesa de uma linha não intervencionista face ao conflito da Síria. 

Sobre a China, durante vários anos, o atual presidente americano desenvolveu uma retórica de denúncia do que ele considera ser a posição agressiva da potência asiática no comércio internacional, levantando suspeitas – factualmente exageradas – sobre a forma como supostamente o Estado chinês promove a manipulação da moeda e um significativo défice comercial com os EUA que ele quererá, supostamente, ver ultrapassado.

Mas a pressão sobre a China não se esgota nas questões comerciais. Dias antes do encontro com o seu homólogo chinês, Xi Jinping, Trump foi claro: “Se a China não resolver os problemas provocados pela Coreia do Norte, então os EUA irão resolvê-los sozinhos.”

Nenhuma destas declarações afastou Xi Jinping, que marcou presença, não em Washington DC, mas em Mar-a-Lago, o clube privado, pertença da família Trump, situado em Palm Beach, na Florida, nem inibiu uma intervenção norte-americana na Síria, com uma série de bombardeamentos que surpreenderam o mundo – incluindo a Rússia, que nos últimos anos, perante as indecisões de Obama, foi assumindo um papel hegemónico na região, não apenas na Síria, mas também, recentemente, na Líbia. Na verdade, existem rumores de que a Rússia poderá estar a apoiar o denominado governo da Câmara de Representantes da Líbia, liderado por Khalifa Haftar, que domina a zona leste do país e que nas últimas semanas foi bem-sucedido na tomada de Ras Lanuf, Sidra e Ben Jawad, áreas ricas em petróleo.

Os ataques na Líbia surgem numa altura em que Putin enfrenta uma elevada contestação interna. Numa altura em que a Rússia vive o terceiro ano de uma grave recessão económica, os protestos agudizam-se. No passado dia 26 de março, a polícia russa deteve mais de 700 manifestantes que participavam num protesto contra a corrupção no país e que juntou milhares de pessoas no centro de Moscovo. Apesar da tentativa de minimizar o impacto mediático das manifestações, elas têm tido significativa repercussão, em especial porque um dos principais alvos será o primeiro-ministro, Medvedev, acusado de deter uma significativa fortuna secreta. 

A dúvida que paira hoje é se as decisões de Trump são motivadas por um espírito incoerente e impulsivo ou se, pelo contrário, a sua imprevisibilidade resulta de uma forte capacidade de ler a realidade e de uma significativa adesão à Realpolitik. Certo é que, na mesma semana, e ignorando o lado folclórico das declarações inflamadas com que inunda o Twitter, Trump beneficiou dos sorrisos do presidente da China e mostrou ao mundo que não se deixa limitar pelas aspirações russas que, perante a evidência dos ataques americanos, ficaram sem qualquer reação. Ficamos a saber, em qualquer caso, que longe vão os tempos em que a política americana em relação à Síria era definida por Vladimir Putin, como ocorreu em 11 de setembro de 2013, quando este escreveu a famosa crónica “A Plea for Caution From Russia”, explicando com pormenor porque entendia não ser do interesse americano uma intervenção na Síria.

Jornal i# 103 - A institucionalização da felicidade

Há duas semanas, para o i,

Há duas semanas, o governo criou o site da felicidade a propósito da comemoração do Dia Internacional da Felicidade. E eu que julgava que se há coisa que não se “internacionaliza” por decreto, que não se comemora de forma circunscrita no tempo e no espaço, é a felicidade. 

Atenção, caro leitor: não se trata do site felizes.pt, uma página, que não merece o patrocínio do Estado, usada para combinar encontros – e cito – “com maturidade”. De facto, a iniciativa do nosso governo pretendeu assinalar aquele dia e permitir que os portugueses partilhassem com o mundo as suas “experiências de bem--estar” e “celebrar a felicidade”.

Naquela data, decretada pela ONU na sequência de proposta do próspero reino do Butão, a submissa pátria lusa esqueceu todos os infortúnios e problemas do dia-a- -dia; naquela data, a tristeza era uma anormalidade e o fracasso, por 24 horas, seria erradicado do nosso país com o aval socialista: os portugueses tinham o dever de ser felizes! Bastava um vídeo ou uma foto que o governo se encarregava de promover e propagandear a felicidade dos súbditos do reinado da geringonça. A nossa esquerda parece, apesar de tudo, ser mais comedida do que, por exemplo, a esquerda venezuelana que, em 2013, criou o Ministério da Suprema Felicidade Social do Povo Venezuelano para garantir a felicidade de todos os venezuelanos através de uma fórmula aplicada ao coletivo. Conhecemos bem o resultado dessa formula “mágica”.
Não sendo possível comparar a situação política, económica e social dos dois países, certo é que a partilha de valores e de uma ideologia à esquerda se reflete neste tipo de iniciativas governamentais que, se por um lado distraem o povo, falsificam e maquilham a realidade nacional dos dois países, por outro comungam do mesmo fim: a intenção de oficializar ou institucionalizar aquilo que é vivido de uma forma individual por cada um de nós, à medida que vamos construindo a nossa história, sem interferência e sem publicidade do Estado. A felicidade, se existir, não é vivida em conjunto nem precisa de intermediações. Sobretudo quando estas são artificiais. 

Mas, por cá, o artifício não durou muito. É que em dia de felicidade, pouco depois de anunciada esta bela iniciativa governamental, é publicado, também pela ONU, o relatório mundial sobre a felicidade em 2017. Ao que parece, por muito que o Estado ambicione intermediar a felicidade dos seus, não tem sido bem- -sucedido no caso português: dos 155 países analisados, Portugal ocupa o 89.o lugar; com níveis de felicidade acima dos nossos encontram-se, por exemplo, a Venezuela (fruto do persistente trabalho do ministro da Suprema Felicidade em tempos tão convulsivos), o Paquistão, o Kosovo, o Turquemenistão, o Cazaquistão, entre outros; Portugal tem vindo a decrescer neste índice da felicidade e, se em 2013 ocupávamos o 73.o lugar, agora estamos no 89.o; da Europa, Portugal é o país com os índices de felicidades mais baixos e um dos países que mais antidepressivos consome.